Estou em crise. Pode ser só uma neurose boba, apesar de estranhamente duradoura, causada pela TPM. Ou uma certa nostalgia em decorrência dos quatro meses que faltam para o meu 27° anivesário. Ou aquela democrática agonia que todos experimentam quando arrancamos fora a folhinha de outubro e percebemos no calendário o final do ano.
Ou pode ser porque eu me casei.
Pois é, casei-me. Estranho, não? Também acho. E às vezes me flagro olhando a aliança e tentando entender o que diabos aconteceu. Afinal, há menos de um ano eu estava aqui, reclamando da árida situação de Atacama na qual me encontrava. E agora estou ali, com a barriga encostada na pia lavando uma pilha aparentemente infinita de louça. Enquanto o Excelentíssimo Senhor Meu Marido, doravante chamado apenas de ESMM e também conhecido por Estrupício Mor, joga videogame no quarto.
Como vocês estão percebendo, este é um post cheio de situações surpreendentes. Porque se há um ano alguém me contasse que hoje eu estaria me dividindo entre as funções de Dona de Casa Júnior, Diretora de Maternidade do Bacon e Presidente Vitalício e único membro da Associação de Esposas do Estrupício Mor, eu GARGALHARIA na cara da pessoa. E depois a xingaria com os mais cabeludos palavrões, claro.
São acontecimentos com esses que me levam a crer que a vida é um grande e inescapável clichê. Ou que o destino, como alardeiam os tarólogos e astrólogos canastrões do mundo, existe sim e taí para todo mundo ver.
Tenho a sensação de que me perdi de quem era, como duas pessoas que se desencontram num aeroporto lotado e acabam tomando vôos para cidades diferentes, como Tóquio e Istambul. Pior: nessa confusão toda, a companhia aérea perdeu minha bagagem com os pertences de uma vida: um desprendimento livre para pensar, fazer e falar; uma difícil e dolorida independência; e a coragem, que sempre me foi tão cara.
Acho que ainda não encontrei o equilíbrio de ser esposa e, ao mesmo tempo, pessoa. O primeiro está apagando, mesmo que levemente, o segundo.
Agora preciso ir. Tenho que descobrir se estou em Tóquio ou Istambul. E recuperar a bendita bagagem.











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