A arte de viajar de avião
Viajar de avião requer o domínio de uma série de técnicas complexas, o que torna essa modalidade uma arte da vida moderna.
1 – A arte de se sociabilizar
Se você é uma pessoa de sorte, cai na poltrona do corredor, da fileira com apenas 2 assentos. Se você tem muita sorte, a pessoa da única poltrona ao seu lado toma um remedinho e dorme todas as horas do vôo. Agora, se você tem azar, cai na poltrona do meio, da fileira com 3 assentos. Se você é um azarado de verdade, as duas pessoas ao seu lado vão ficar de papo o tempo todo, pedindo para segurar coisas, usando por engano o seu seat belt, se esparramando nos braços das poltronas e roncando. Assim, é muito importante ser uma pessoa social, simpática e agradável. Mas não seja muito agradável, para que o chato não se sinta muito a vontade e comece a contar intimidades em nauseantes detalhes.
Por exemplo, é sempre de bom tom puxar papo. Comente sobre as horas de vôo (sempre reclamando), sobre a feiúra das aeromoças (se você estiver voando pela American Airlines), sobre conexões, e o diabo. Para onde vai, de onde vem, e o que vai fazer no destino é sempre arriscado: a pessoa pode engatar uma quinta marcha e daí adeus sossego, porque ela não vai parar de falar até a hora da refeição ou do filme.
Entretanto, até para os incovenientes há solução: enfie um fone de ouvido e fique só balançando a cabeça. Em determinado momento, pare até de balançar a cabeça e somente olhe para frente. O cara vai sacar que você nem está mais ouvindo e desencanar da conversa. Não tire os fones por nada no mundo. Vá ao banheiro com eles.
2 – A arte de se alimentar
Com essa maravilhosa contenção de gastos das companhias aéreas, não dá mais para contar com a refeição a bordo. Na Gol, por exemplo, o máximo que se ganha é um pacotinho de amendoim torrado e barrinha de cereais. Eca. Nas companhias que ainda servem meal, seja porque o vôo é longo, seja porque faz parte do pacote, a comida é horrível. Tudo tem o mesmo gosto de plástico: o frango com massa tem gosto de isopor, a salada tem gosto de papel-filme e o bolo de chocolate tem gosto de plástico-bolha. Além disso, a quantidade é irrisória. Restaurante francês fino traz mais num único prato que a refeição completa servida no avião.
Para piorar, o espaço para se comer é ridículo. A mesinha é super mega pequena, qualquer movimento extra de talheres faz seu cotovelo bater no rosto do vizinho. Manusear pedaços de carne com faca de plástico também não ajuda, ainda mais em recipientes minúsculos com bordas. A bandeja onde tudo é servido tem 20 x 15 e aí ainda tem que caber um copo e a lata de refrigerante, muitas vezes.
Para facilitar, sugiro levar tudo à boca, no estilo japonês de comer. Além de aproximar a embalagem do rosto e evitar que caia comida no colo, você ganha mais espaço para manobrar, já que seu vizinho provavelmente estará debruçado sobre a mesinha, lutando com a comida dele. Vá comendo por partes e acumule os recipientes num canto único, um dentro do outro. E seja rápido: em menos de 15 minutos uma comissária de cara feia vai retirar tudo, quer você tenha tido tempo de comer, quer não.
3 – A arte de se adaptar
O espaço entre a sua fileira e a da frente é ridículo. Eu não sei quanto tem, mas certamente é menos do que alguma associação em defesa da saúde em vôos recomenda. E em muitas viagens, você passa mais de 12 horas ali, com uma gama de posições bastante restrita. Dormir é terrível, o pescoço dói (quem disse que a poltrona é anatômica? Com certeza alguém que nunca estudou anatomia na vida… ou alguém que nunca viajou de avião), as pernas doem, os pés incham, não tem lugar para por os braços, a cabeça cai durante o sono, enfim, um transtorno. Nos pés, ainda vão seus sapatos (quase todo mundo tira os seus assim que o avião decola) e parte da bagagem de mão, quando não há espaço no bagageiro superior. E, muitas vezes, o pé do cara de trás, que se estica até aparecer à frente da sua poltrona, passando por baixo do assento. Se ele não tiver chulé, sinta-se no lucro.
Não tenho nenhuma dica sobre essa arte. O lance é tomar um remédio e dormir o tempo todo, da maneira que der. Porque ficar dormindo picado, acordando o tempo todo para se ajeitar no exíguo espaço, é coisa de pesadelo, Pânico V: 14 horas de vôo na classe econômica. Se alguém souber de alguma forma brilhante de aproveitar o espaço, por favor, utilize os comments and let the world knows about it.
4 – A arte de usar o banheiro
Ele é minúsculo, fedido com cheiro de urina ou com cheiro de desinfetante mata-tudo, com uma descarga assustadora e torneiras que jorram uma água suspeita. Afinal, de onde vem a água usada nos Boeings que transportam centenas de pessoas por muitas horas? E para onde vão os dejetos da privada? Muito suspeito.
O problema real não é usar o banheiro apertado, isso é fichinha para quem faz o mesmo com ônibus em movimento e janela aberta para o caminhoneiro ao lado. O problema é o horário; todo mundo resolve usar o banheiro ao mesmo tempo, logo depois do café da manhã ou do jantar. Incrível, mas muitas vezes há fila para isso. E quanto mais vai passando o vôo, em pior condição ficam.
Outubro 11, 2007 at 2:52 pm
quem é vc? rs…
Outubro 12, 2007 at 1:10 pm
Por isso eu sempre vou de ônibus. Dependendo da sua simpatia para com o pilot… digo, motorista, ele dá até aquela paradinha no acostamento para você se aliviar. Comida você tem de montão em qualquer posto de gasolina no trajeto, a menos que seja uma viajem transatlântica, que no caso eu recomendaria uma boa pescaria. ;-)
Outubro 13, 2007 at 1:00 pm
Claro, viagens transatlânticas eu recomendo um navio-gaiola, daqueles lá do Amazonas ou Rio S. Francisco.
Beijucas.
Dezembro 28, 2007 at 1:49 pm
KKKKK…eu também tenho as mesmas dúvidas sobre o que entra (água) e o que sai (dejetos) dos banheiros de avião.