Vida de Bióloga

Durante uma matéria de Comportamento Animal na faculdade, foi proposto um trabalho de tema aberto para ser apresentado no final do semestre. Uma amiga muito querida e eu resolvemos relacionar o que os homens buscam num relacionamento e o que preferem as mulheres. Na verdade, não me lembro muito bem qual o objetivo do trabalho, mas é impossível esquecer a metodologia que utilizamos: analisar as contas de usuários de serviços como o Yahoo!Encontros e tentar traçar uma relação de tudo o que está lá.

Servindo de parâmetro, comparamos perfis de pessoas da cidade de São Paulo com perfis de moradores do Rio de Janeiro e, numa tentativa de aplicar alguma teoria que explicasse o comportamento sexual, comparamos também as tendências masculinas com as femininas, evidenciadas através desse serviço de namoro.

Preciso explicar que nossa frequência nas aulas dessa matéria era pífia. Estávamos mais interessadas em cumprir os créditos a levar alguma coisa realmente a sério. O fato é que gostávamos de Comportamento Animal como os telespectadores gostam do Discovery Chanel: é curioso, rende assunto para conversas de boteco, mas só. Nem ela nem eu imaginávamos pesquisar seriamente esse assunto em nossos respectivos laboratórios. Por esses motivos, o trabalho foi uma extensão da nossa curiosidade natural ligada a uma eterna vontade de se divertir, pura e simplesmente.

Pois bem, para termos acesso aos perfis, foi necessário criarmos uma conta. Inicialmente imaginamos criar a conta e deixar que os interessados nos procurassem, para então analisar esses perfis. Mas estávamos sem tempo e, aparentemente, perfis sem fotos não despertavam lá muita procura. Criamos um personagem masculino e um feminino, de 30 anos e interesses genéricos como viajar, cinema e literatura. Até o dia em que desabilitei as contas, uns 3 meses depois, havia recebido umas 3 mensagens de homens que haviam gostado do personagem feminino.

Uma coisa interessante do serviço do Yahoo!Encontros que acredito que exista em outros similares é a opção de escolher qual tipo de relação você busca: amizade, namoro, casamento e se a relação é hétero ou homossexual. Escolhemos o combo “namoro heterossexual”. Também é necessário responder a umas perguntas criadas pelo site. No final, é feita uma escala que mostra o quanto o usuário se interessa por coisas como beleza física, situação financeira e cultura. Os interessados só têm acesso a essas informações se o dono do perfil permitir.

Como não havíamos despertado interesse e por isso não tínhamos universo amostral para analisar, resolvemos escolher 10 mulheres e 10 homens do Rio de Janeiro e a mesma quantidade em São Paulo, aleatoriamente. E descobrimos o que mais ou menos o bom senso já nos indicava: no Rio de Janeiro, cidade de praia, a coisa mais importante para homens e mulheres é a beleza física. Já em São Paulo, características como cultura aparecem em primeiro lugar, mas numa segunda posição bem próxima da primeira está a situação financeira. Provavelmente porque São Paulo ainda é uma cidade ligada a trabalho, sucesso profissional, estudo, etc.

Já a comparação entre homens e mulheres mostrou que eles ainda dão mais valor à beleza física e elas, a cultura. Em segundo lugar vem cultura para eles e situação social para elas. Para homens é importante a situação financeira da parceira apenas em terceiro lugar, enquanto que para as mulheres, a beleza física ocupa a mesma posição.

Fizemos uma apresentação bizarra em Power Point, o melhor amigo dos universitários. A conclusão foi bem fraca e tivemos dificuldade para embutir alguma teoria nisso tudo, é claro. Mas acho que foi o trabalho mais divertido que fiz na graduação e, com certeza o mais original. Teve gente que quis nos indicar para o prêmio Ignobel, para acho que ao menos serve como mais um assunto de boteco.

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One Comment on “Vida de Bióloga”

  1. Thiago Azevedo Says:

    Rachel

    Legal este seu trabalho! Bem coisa de biólogo mesmo!
    Lembrei do trabalho de um grupo que avaliou se as abelhas que bisbilhotam os copos durante o almoço preferem coca-cola ou pepsi!

    Conheço muito pouco os dois lugares, mas vou dar o meu pitaco:

    O Rio é um lugar no qual você é convidado a sair de casa e andar, fazer exercícios à beira da praia (isso, logicamente, para quem mora próximo à praia ou tem condições para ir até lá). Então, quem mora lá tende a cuidar melhor do corpo e tal, e por isso essa característica é mais valiosa. Há ainda a rede globo. Tenho a impressão que, no fundo, no fundo, muita gente lá sonha em ser parado por algum olheiro da emissora (tive essa impressão, de ouvir o povo falar da emissora – a impressaõ que tive é que tudo gira em torno dela), e, sem dúvidas, a beleza física é o que propicia isto.

    Sampa já é mais complicado para fazer exercícios, pois não há praia e por isso não há um convite tão convincente para fazê-los! Lá chove pra caramba e o tempo gasto para chegar em casa também deve inviabilizá-los, pois como fazer uma caminhada no parque Ibirapuera à noite? Creio que no Rio, o policiamento em torno das praias seja maior do que nos parques e fundos de vale de Sampa. Então os paulistanos acabam investindo mais em cultura mesmo, pois ficam mais dentro de casa.

    Também fiz biologia, tive uma baita vontade de largar o mestrado em 2005, mas acabei continuando. Agora, feliz ou infelizmente, esta carreira está se encerrando. Me tornei concurseiro! O seu mestrado era no quê?

    Inté!


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