Dos fios revoltos de garota
Nada mais lindo que o cabelo desarrumado do amor. Aquele cabelo em que se perdeu um tempão lutando com o secador e com a escova larga de cerdas macias, esticando, puxando, alisando. Aquele cabelo que tostou na prancha da chapinha, que queimou os dedos e a ponta das orelhas da menina. Aquele cabelo que, depois de pronto, não pode sequer ouvir a palavra “umidade”.
Você gastou horas da sua vida de moça fino-trato cuidando dos fios para o rapaz bagunçar no primeiro carinho. A mão que teima em tirar a franja dos olhos. Não entende ele que a franja nos olhos é o charme do corte escolhido na revista, muito caro cobrado pela cabeleireira, a duras penas modelado para cair sobre os olhos, um pega-rapaz anos 00. O travesseiro que amassa e marca mechas em desenhos abstratos, pontas tonalizadas como serpentes marinhas em caramelo. O calor, o calor. E você, tentando corresponder à performance imaginada pelo rapaz sem se descabelar… impossível. Amor de verdade a gente faz com muito suor, num quarto fechado sem ventilador nem ar condicionado, na pressa teimosa que insiste em acelerar todo o processo, na respiração barulhenta e nos sussurros dos lábios colados à pele. O cabelo grudando nos rostos, grudado nas costas, insistindo em voltar à forma original, ensandecidamente desgrenhado, deliciosamente natural. E você nunca esteve tão linda aos olhos dele, o desalinho pós-amor, que frustra as duas maiores obras da engenharia feminina: o cabelo liso e o rímel nos olhos.
Uma sôfrega ode à paixão descabelada.