Pequenos romances 1

Esse é o primeiro texto de um parzinho com o mesmo tema, que foi escrito há um bom tempo e já havia sido publicado no falecido Fifty-Fifty. Talvez vire uma pequena série com outros, autobiográficos e fofos. Talvez amanhã eu mude de idéia e desista. Enfim, isso aqui vai de acordo com o meu humor, vocês sabem. 

Vamos a eles.

Tive meu primeiro namorado aos 7 anos, na primeira série, mas a gente havia se conhecido antes, ainda no pré-primário. É, eu era precoce, eu sei. Lembro que ele começou a freqüentar a escolinha depois todo mundo. O que não é realmente um problema, já que no pré as crianças em geral aprendem apenas a se socializar, pintar o cabelo da menina ao lado com guache e furar a mão dos coleguinhas com lápis de cor. Enfim, conhecimentos de grande utilidade no futuro, quando estiverem na quinta série e forem os mais novos do intervalo. Mas o fato é que ele era um total desconhecido de todos nós quando entrou na sala. Who cares?: aos seis anos o importante é se seu par é o mais rápido na corrida, ou se faz os melhores desenhos de homens-palitinho, ou esse nível de preferência que a gente mantém até uns 10, 11 anos. Depois disso o efeito de tralhas como Malhação e Capricho atrapalha o processo para sempre.

Lembro perfeitamente que no primeiro dia queria que ele brincasse comigo no parquinho, mas o moleque preferiu ficar num canto, emburrado, chupando o dedo. Detalhe: ele chupava o dedo anelar, coisa totalmente original. Rolou um empatia instantânea, porque eu ainda usava mamadeira (só em casa!) e morria de vergonha. Aliás, essa lembrança me chamou atenção para o absurdo que é ser tão pequeno e já ter noção de culpa. Provavelmente aquela combinação timidez + originalidade foi significativa, porque guardo memória desses fatos todos até hoje.

O período de paquera começou aí, creio. Aquela coisa: brincar no parquinho, sentar ao lado no gira-gira, sumir com os meus brinquedos, jogar terra na minha roupa e puxar meu cabelo. Definitivamente os meninos têm uma noção bastante peculiar de como fazer a corte a uma senhorita. E, apesar de corresponder às investidas – imagino que eu correspondia mesmo -, o cromossomo Y é implacável com seus portadores, porque ele só foi se declarar na primeira série, quase um ano depois. Haja paciência.

Nesse dia a classe toda comentava uma carta que ele iria me dar. E eu fingindo aquele falsa ignorância tão comum nas mulheres, já desde essa época uma verdadeira atriz. No final da aula, antes de sair correndo de bicicleta, me entregou um papel dobrado em quatro onde perguntava se eu queria namorar com ele (sic). Assertivo o garoto, né não? Achei o máximo: tinha sido escrita a caneta (auge da maturidade aos 7 anos) e numa folha do caderno da irmã mais velha. Eu namorava um cara original e rebelde! Para melhorar só se fosse líder de uma banda punk ou roubasse carros; aí seria digno de roteiro hollywoodiano. 

E foi assim. Nunca rolou nem um beijinho besta, claro, mas nós nos divertimos muito. Dançávamos nas festas toscas da escola, tipo quadrilha e whatever, repartíamos o lanche, ele guardava lugar para mim nas filas e eu para ele. Achava-o o guri mais rápido nas corridas e o melhor no salto em distância, apesar de não ser nenhum dos dois, porque o melhor em tudo era o Adriano. E – olha que coincidência do destino! – o Adriano era o melhor amigo dele, e a minha melhor amiga era apaixonada pelo Adriano, e esse nó nos mantinha sempre aos pares, fazendo as tarefas juntos, brincando juntos, crescendo juntos.

Durou até o final da segunda série, quando me mudei para outra cidade. Ainda enviei umas cartas e um cartão no dia dos namorados, mas nunca mais o vi. Soube há pouco tempo, pelo orkut, que faz eras que ele namora uma garota que também era da nossa classe, a Rafaela.

Gosto de lembrar dessa época simples. Tudo tão fácil, tão divertido, sem maiores complicações. Dessas coisas fofas de criança que dão colorido às lembranças.

Espero que o Ricardo seja imensamente feliz, com a Rafaela ou com outra garota, não importa. O Ricardo que está na minha memória era só meu, e agora é só esse que existe para mim.

 Se você gostou, vai adorar este texto aqui do Inagaki, no Pensar Enlouquece.

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10 Comments on “Pequenos romances 1”

  1. Monsores Says:

    Que singelo…
    Eu lembro dessa época de uma forma um pouco diferente. Eu era o maior da turma e todos tinham medo de mim. Eu era apaixonado pela minha prima, que estudava na mesma classe, mas ela gostava do meu melhor amigo.

    Hoje eu continuo sendo o maior daquela classe. Minha prima teve um filho com um outro primo distante aos 16 anos de idade. Estão casados agora, pelo que eu soube. Nunca mais tive contato.

    Meu melhor amigo naquela época está em algum lugar hoje entre o céu e a terra.

    Quero ler o segundo. Anime-se, moça.

  2. Thalita Says:

    Adorei esse texto!!!!!!!!!!!!!! Uma nostalgia louca!!!!!

    Parabéns

  3. Edu (outro) Says:

    Mto bom!
    Mas eu passo… essa época é uma época que eu não faço questão nenhuma de lembrar. Ninguém me queria… kkkkkkk

  4. xey Says:

    adorei muito aqui ~

  5. xey Says:

    confissoesdedoissegundos.wordpress.com


  6. [...] romances 2 Aqui vai o segundo texto da série. Como o primeiro (leia aqui), já foi publicado no querido Fifty-Fifty (que descanse em paz). Ainda não tenho idéia de como [...]

  7. fred schmidt Says:

    Muito legal.
    Apesar de que tinhamos quando criança os mesmos sentimentos, na minha época não havia essa de um garoto de 6 namorar.
    Acho que neste ponto a sociedade conseguiu evoluir bem.
    O ruim é quando a garotada fioca estimulada por pais ou parentes : Você tem namorada?
    Namorar por namorar, não me pqarecenem natural nem gostoso.
    Agora, rolando uma atraçãozinho, porque a garotada não pode curtir?

  8. Thiago Azevedo Says:

    Bem legal a sua história!

    É, nesta época já sabíamos que quem tinha mais habilidade em alguma coisa sempre leva alguma vantagem!

    Lembrei de uma menina que eu gostava no pré.
    Um dia, não sei de onde partiu a idéia, queríamos ver quem fazia o melhor desenho. Na realidade não era exatamente um desenho, eram pequenos triângulos traçados ao longo das linhas do caderno de caligrafia. Competi com um outro cara, e era ela, a minha paquera, quem escolheria o “desenho” mais bonito. O meu lápis tinha a escrita cinza, mais apagada do que a dos outros colegas (devia ter um grafite mais duro), e percebí que se fizesse com este certamente perderia. Então o pulo do gato era utilizar o lápis de cor preto! Estava confiante! Mas esqueci de olhar as condições do lápis, se estava com ponta, e tal. E praticamente não tinha ponta (não era aula de desenho, então os lápis de cor não estavam ajeitados), coisa que só percebí durante a prova! Claro que perdi, os meus triângulos ficaram horrorosos – inclusive, quase rasguei a folha do caderno, que ficou amassada, por forçar o lápis para que o grafite atingisse o papel! Foi terrível perder a disputa – durante a prova, eu via que o meu estava feio e o do cara estava legal – deu um baita desespero! hehe Nunca esqueci o momento do veredicto, dela falando e tal! E o pior é que o cara sabia que eu gostava dela – a cara de satisfação que ele fez! Argh! Foi trash! hehe


  9. [...] romances 3 Conforme prometido, o terceiro texto da série sobre amores na infância (aqui está o primeiro texto e ali o segundo). Autobiográfico, claro. Deve haver mais um, o quarto deles, até o final [...]

  10. maria leticia Says:

    eu achei muinto enterrancante essa historaia porque eu acho que todas as crianças ja passara com isso na infancia sou maria leticia moro em angatuba e gostei muinto dessa historia


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