Tem uma alface no seu dente

Saí da faculdade no fim de 2005, abandonando o mestrado no meio (fiz apenas um ano) e com a certeza de que não queria trabalhar na área em que havia me formado a tão duras penas (sou bióloga). Aceitaria alguma colocação dando aulas de biologia – minha única esperança, afinal -, mas não botaria mais um pé num laboratório. Por uma incrível coincidência, depois de uma semana distribuindo currículos, fui convidada para trabalhar com vendas numa empresa, função que mantenho até hoje. Não vou dar detalhes do trabalho em si porque é muito chato e não vai interessar a ninguém. Prefiro comentar de dois pequenos problemas que tive e que agora estão sanados. Acho.

Uma das habilidades que fui obrigada a desenvolver é a de manter conversas sociais. Sabe? Aquele papo ridículo que temos que travar por educação e força das circunstâncias com gente desconhecida ou semi-desconhecida. Costuma acontecer em elevadores, ônibus, filas e festas ruins. É uma coisa que eu odiava fazer e tinha plena consciência de que a fazia muito mal: o interlocutor sacava que eu tinha que forçar uma verdadeira batalha interna para soltar 3 ou 4 frases medíocres acompanhadas do famoso sorriso amarelo. O pior é que essa tortura geralmente se prolonga por horas – ao menos é o que me parece que demora o elevador para sair do térreo e chegar ao terceiro andar, onde moro.

Em ocasiões em que o emprego me obriga a conviver, mesmo que por apenas alguns dias, com pessoas que nunca vi na vida, tive que aprender a ser simpática na marra e, para me safar do silêncio constrangedor que mais parece um elefante branco sentado à mesa, desenvolvi 2 temas de discussão que costumam render: futebol e viagens. Em geral o interlocutor é homem e estrangeiro, com alta probabilidade de se interessar por ao menos um deles. Em pouco tempo de conversa o cara já está me confessando que mudou de time quando tinha 12 anos, da vez que foi ao Maracanã ver um jogo do Flamengo, que chorou quando a Argentina perdeu para o Brasil na Copa América, que o Balack tem que voltar para o banco do Chelsea e outros comentários desse naipe. Se o tópico da conversa for sobre experiências de viagem, sempre ouço pessoas dizendo que adoram Trancoso, ou alguém que passou mal quando comeu um sanduíche “light” em Camboriú e dos assaltantes que cercaram fulano no Rio de Janeiro. Enfim, consigo preencher 3 horas de jantar com amenidades que divertem e não me cansam (muito). E ainda dou pinta de ser uma pessoa “agradável” e “interessante”.

Outro problema que tinha nessas refeições sociais era com a bendita etiqueta à mesa. Certa vez me vi sentada à frente de 3 pratos de tamanhos crescentes, taças de todos os formatos e tamanhos e mais ou menos uma dúzia de talhares me olhando com cara de “primeiro eu!”.  Acuda, santo protetor das pessoas cafonas! Juro que não sabia nem por onde começar e me senti suando frio. Para uma pessoa que come pizza com a mão e macarrão com colher, aquilo era como um atestado de caipirice que eu estava prestes a assinar, com testemunhas. Se não sabia nem para que servia tanta coisa, imagina se conseguiria usar o utensílio correto e ainda ficar trocando a faca de mão – habilidade que sempre me despertou uma inveja incontrolável.

Depois de alguns segundos de pânico, terror e aflição, fiquei a observar todos os apetrechos e imitar quem estava próximo e exalava um ar “nasci num castelo e meu pai é lorde”. A primeira vez (como todas as primeiras vezes de tudo na vida) foi mais difícil, mas acertar os modos durante uma refeição não é impossível. O truque é começar de dentro para fora e mudar a faca de acordo com o prato: carnes vermelhas pedem uma maiorzona, com cabo bojudo, geralmente a mais externa de todas; as entradinhas usam uma faquinha pequena e delicada, tipo de café-da-manhã, e um pratinho menor; colheres sempre para sopas e cremes; e por aí vai. O segredo é se guiar pelo bom senso; regras básicas que a mamãe ordenava aos petizes valem ouro: mantenha os cotovelos grudados no corpo e entre um bocado e outro pouse os talheres à esquerda e direita do prato. Com relação às taças, deixe que o garçon sirva as bebidas – automaticamente você saberá para que é usada cada uma.

No fim, descobri que não ocorre apedrejamento em praça pública para quem erra à mesa: é tudo questão de treino e ninguém repara se você trocou um ou outro utensílio. Vai na fé.

O Marcelo Katsuki trouxe umas dicas sobre etiqueta à mesa em seu blog da Folha Online, veja aqui.

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4 Comments on “Tem uma alface no seu dente”

  1. Gabriel Says:

    Uma vez eu comecei a sair com um menininha super bacana, com papo bom, gatinha; Fui conhecer a família e tudo mais. As coisas rendiam super bem, até que um dia levei a moça para jantar. Nada fancy, uma cantina normal.
    A moça pegou a faca de mão fechada, e empurrava a comida com a dita para cima do garfo.
    De uma hora para a outra, brochei totalmente. Não falei nada, até tentei continuar um pouco, mas era impossível. As qualidades eram muitas, mas toda hora eu lembrava da cena.
    Vai por mim, modos à mesa é essencial. Nada de trocar a faca de mão, e pegar o talher errado não é nada. Até pode ser um charme pegar um copo grande para colocar o vinho.
    Agora, segurar talher errado, fazer aquele barulho com a faca no prato, jogar comida no vizinho (sem contar quando comemos crabs) não dá.

    beijo!
    Gabriel


  2. Desculpem, mas eu não tenho muita paciência para essas conversas que não levam a lugar nenhum. Quando chega alguém do meu lado dizendo “calor, hein?”, já coloco o cérebro no automático.

    E eu nunca entendi qual é a intenção desse monte de talheres, copos e tudo o mais. Podem me chamar do que quiserem, mas para mim, é só não limpar a boca na mesa e mastigar de boca fechada que você já evitou um vexame.

    Resposta da Rach: Ahahahahaha é bem por aí… tenho uma amiga que chegou ao cúmulo de levar uma “arrozada” no olho ao conversar com um cara que falava de boca cheia. Um grão de arroz escapuliu e chegou ao olho dela.
    Isso, sim, é vexame.


  3. Rach, sobre a primeira parte, ainda bem que vc já desenvolveu as suas próprias técnicas. Se não tivesse conseguido, ia dizer para vc passar uma temporada aqui no Rio, onde com menos de 10 minutos em qualquer fila de banco, fila de ingressos pro Maraca ou sei lá mais o que, os cariocas viram seus “amigos de infância”, falando até de suas coisas mais íntimas… São uns artistas esses cariocas. Volta e meia uns malas, mas tudo mala gente boa!

  4. Carlos Says:

    Desculpe mas TODOS os cariocas que eu conheço são malas ;/


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