Pequenos romances 2
Aqui vai o segundo texto da série. Como o primeiro (leia aqui), já foi publicado no querido Fifty-Fifty (que descanse em paz). Ainda não tenho idéia de como será o terceiro desta série, nem sei ao certo se haverá continuação. Se houver, segunda-feira estará aqui.
Vejamos:
O segundo namorado me apareceu na quarta série, durante uma excursão da escola. Éramos uns 40 moleques de 10 anos enfiados num acampamento em São Bernardo do Campo por 4 dias. Fazia frio e chovia muito. Mesmo assim, íamos à piscina, passávamos a noite acordados tomando sereno, comíamos como subnutridos da Somália. Tive uma dor de garganta inesquecível e emagreci 2 kgs.
Na penúltima manhã fizemos uma trilha no meio da mata atlântica daqueles morros. Como estava tudo muuuuito úmido, era praticamente impossível não escorregar e cair de bunda (e cara, braço, perna) na lama. Lembro que fui com um agasalho novo, que no retorno minha mãe botou direto no lixo, de tão rasgado e manchado. Nem preciso dizer que ela ficou super feliz com isso. Também perdi um tênis zerado nessa excursão e ela ficou ainda mais feliz quando soube.
Na trilha os monitores intercalaram meninos e meninas na fila. lembro que o menino que estava atrás me ajudou no caminho inteiro, segurando a minha mão enquanto eu me equilibrava na lama, pulava buracos, descia barrancos e tropeçava em galhos. Torci o tornozelo no início da trilha, mas isso a gente só foi descobrir quando voltamos ao dormitório e meu pé estava uma bola de tão inchado. Eu mal conseguia andar e ele passou o tempo todo me apoiando no lado manco, simplesmente o máximo do cavalheirismo.
Passei a última noite com o tornozelo enfaixado, e de meia. Estava muito frio e não dava pra ficar sem meia. Só que eu também tinha perdido o chinelo, então fiquei de meia e sem chinelo, e quando a minha mãe viu o estado da meia me proibiu de ir em excursões da escola. É óbvio que depois ela esqueceu dessa proibição e fui em todos os passeios. E sempre voltava em petição de miséria, tanto eu quanto as roupas.
Nas quase 12 horas de viagem de ônibus na volta para casa, fui sentada ao lado daquele menino que antes da trilha nem sabia que estava na mesma classe que eu. E na sala, logo na segunda-feira, ele mudou de lugar e se sentou atrás de mim.
Percebi que estava rolando uma paquera. Ao invés de esperar o garoto dar o primeiro passo – sabia com a experiência do primeiro namorado que isso podia levar anos – me adiantei e joguei um bilhete na carteira de trás. Era feito de papel de caderno, lógico, onde perguntava se ele queria namorar comigo, com uns quadradinhos para marcar “sim” ou “não”. Amor em alternativas, saca? E fiquei naquela ansiedade absurda, morrendo de medo dele assinalar o “não”. O papel deve ter voado de volta para minha carteira em dois minutos, mas me pareceu levar eras. Veio com um “sim” e a partir desse dia estávamos namorando. Simples, né?
E foi isso. Namoros na primeira série e na quarta não têm muita diferença (ao menos nos meus): também nunca rolou nem um beijo, mas ficávamos juntos no recreio, íamos aos aniversários e fazíamos as tarefas da escola. Às vezes ele acompanhava meus treinos do vôlei, noutras era eu quem assistia aos jogos do futebol. Mandava bilhetes cheios de corações com os nossos nomes. Decidimos aos 10 anos que nossos filhos seriam corinthianos e que teríamos 3 cachorros. Era super legal. Mas em 3 meses brigamos por algum motivo tosco que não me recordo e ficamos sem nos falar por uns 2 anos. Coisas da infância.
Mas esse não é o fim da história. Porque continuamos na mesma escola, frequentando os mesmos lugares com as mesmas pessoas. E no primeiro colegial ficamos para valer, com direito a beijos intermináveis e aquela apreensão no dia seguinte. Tudo rolou em outra excursão da escola, por incrível que pareça. Entretanto, não houve bilhetinho com alternativas nem namorico de 3 meses.
Depois disso, crescemos. Ele namorou uma das minhas melhores amigas, passou um ano no México, eu fui para a faculdade, virei moça e também arranjei um namorado. Até certo dia, quando meu namoro ia mal das pernas e ele estava solteiro. Era época de férias de verão, ninguém tinha nada para fazer além de se divertir. A gente passava o dia jogando War, nadando, brincando com o cachorro dele, conversando e fazendo planos para o futuro. De novo. Dali um mês meu namoro de 2 anos acabou e eu voltei a ficar com o namoradinho da quarta série. Mas também não chegamos a namorar.
Esse, sim, é o fim da história. Ou não. Porque, aparentemente, a minha história com o Guilherme não tem fim, só encontros e reencontros. Quem sabe eu não torço o tornozelo de novo, um dia desses.
Tags: amor na infância, primeiro namorado
You can comment below, or link to this permanent URL from your own site.
Janeiro 17, 2008 at 9:51 am
Você já tinha consciência de um bom time pro seu filho torcer rsrs
Janeiro 17, 2008 at 4:45 pm
Os namoros da infânicia são muito marcante… Acho que a inocência faz com que tenhamos uma satisfação completa e duradora. E essa sensação ainda é a mesma depois, já adultos, recordamos daqueles momentos.
Janeiro 17, 2008 at 7:05 pm
Veja como é a vida: eu dei meu(s) primeiro(s) beijo(s) no pré. Eu e a Juliana ficávamos na sala no recreio e, a pretexto de “ensaiar a novela”, ficávamos um de cada lado da sala, de costas. De repente nos virávamos e corríamos um na direção do outro, como se estivéssemos há anos sem nos ver. Lambíamos a língua alheia atrapalhadamente, eu me lembro das dentadas que tomava dela e das reclamações que ouvia sobre supostas dentadas que ela sentia (nesta troca de mordidas eu tive mais sorte que ela, pois eu ainda tinha todos os primeiros dentes e ela já estava banguelinha). Hoje, nenhuma puta do mundo põe a língua na minha boca.
PS: estou te devendo um agradecimento pela defesa da estante que eu indiquei no blog do PD. Eu não disse que a beleza é persuasiva? Depois do seu comentário, a estante que só fora enxovalhada até então viveu momentos de glória, defendida por um exército de machos sensíveis (leia-se: pervertidos).
PS2: preciso aprender a ser menos prolixo
Janeiro 17, 2008 at 7:42 pm
Poxa, veja que engraçado: uma das primeiras namoradas que tive – com a diferença de que não teve o bilhete com SIM e NÃO e eu não era novo – foi quando torci meu tornozelo. Talvez os tornozelos é que realmente sejam o símbolo do amor e não o coração. Vai saber.
Janeiro 18, 2008 at 11:04 am
Beijos Rachelsinha
Janeiro 18, 2008 at 12:22 pm
Nossa, como este post me fez lembrar da minha infância… Eu já falava que eu ia casar com o meu atual marido desde os 6 anos, nos conhecemos no antigo CA e foi meio isso de passar pelas fases, infância, adolescencia… e casamos, aos 26 depois de 10 anos de namoro (e alguns términos, pq ninguém é de ferro!) Estudamos juntos até o final do 2º grau e a gente costuma dizer que somos tão diferentes hoje em dia que se a gente se conhecesse hoje, dificilmente nos daríamos a chance de começar a acontecer alguma coisa, hehehe como é a vida né?
Janeiro 22, 2008 at 7:04 am
[...] prometido, o terceiro texto da série sobre amores na infância (aqui está o primeiro texto e ali o segundo). Autobiográfico, claro. Deve haver mais um, o quarto deles, até o final da [...]