Pequenos romances 3
Conforme prometido, o terceiro texto da série sobre amores na infância (aqui está o primeiro texto e ali o segundo). Autobiográfico, claro. Deve haver mais um, o quarto deles, até o final da semana.
Que tal ficou?
Meu maior e mais duradouro romance de infância aconteceu aos 6 anos. Nessa época me apaixonei perdidamente por um menino que morava a poucos metros da minha casa e que encontrava todos os dias na pracinha da esquina, onde íamos andar de bicicleta nos finais de tarde. Ele era magrinho, com um cabelo castanho cortado no famoso estilo “tigela” e andava de bicicleta muito mais rápido que qualquer outro garoto. Não demorou muito para ficarmos amigos. Mais que amigos, nos tornamos inseparáveis.
A atividade predileta era andar de bicicleta, lógico. Mas nos dias de chuva ficávamos confinados à casa dele ou à minha, horas e horas seguidas. Para criança, brincadeira não tem gênero: uma de nossas preferidas era com miniaturas dos Ursinhos Carinhosos. Quando minha irmã nasceu, mamãe, para tentar aplacar meu ciúme quase infinito, comprou três bonequinhos do desenho animado, de cores diferentes e coraçãozinho no bumbum. Meu amigo tinha outros quatro e também o carro em forma de nuvem dos Ursinhos Carinhosos. Passávamos dias imitando as vozes dos brinquedos e voando no carango-nuvem. Brincávamos também com os personagens do Thundercats; ele sempre ficava com o Lion e eu com a Cheetara, um acordo tácito que nunca precisou ser estabelecido em voz alta.
Fingíamos trabalhar num restaurante e fazíamos bolos de lama com pequenos enfeitos de grama, flores e folhas. Infelizmente essa brincadeira durou apenas uma tarde. Eu vestia uma camiseta branca do uniforme da escola que adquiriu um eterno tom encardido e depois disso fui terminantemente proibida de cavoucar o quintal.
Meu melhor amigo me conhecia tão bem quanto a mamãe. Num aniversário de 7 anos que teve o tema “selva” – eu era uma aprendiz de bióloga desde então -, cada pequeno convidado ganhou uma máscara de papel com o rostinho de um bicho e justamente para mim tinha sobrado a de sapo. Que menina na face da Terra ficaria contente com uma máscara de sapo, no próprio aniversário? Mas meu melhor amigo previa minha cara de choro com tamanho azar e escondeu para mim uma máscara de gatinho. A única máscara de gatinho que havia na sacola. As fotografias daquele dia mostram várias imagens de um leão magrelo abraçado a um gatinho de vestido.
Quando, aos 9 anos, tive que mudar de cidade, perdi o contato com ele. Nunca mais o vi ou tive notícias, nem mesmo pelo orkut. Na minha nova escola fiz vários outros amigos e até mesmo encontrei uma substituta – duas, na verdade – para ocupar o lugar dele. Devo admitir que por um tempo o leãozinho foi jogado no limbo da minha memória e esquecido, como ocorre com parte daquelas lembranças de criança que infelizmente ficam desativadas. Estão lá, mas nos esquecemos que não estão esquecidas por completo.
Aos 18 me mudei para Ribeirão Preto, onde fiz faculdade; só voltava para a casa de meus pais nas férias. Num desses períodos, aos 22, estava numa festa quando senti um cutucão no ombro. Era um rapaz alto, cabelo liso castanho naquele estilo ‘bagunçado’, rodeado de outros caras desconhecidos. Me preparei para ouvir uma cantada imbecil e responder alguma coisa mal educada; estava com um péssimo humor e queria ir embora o quanto antes, se possível saindo totalmente incógnita. Mas meu coração falhou uma batida quando ouvi “você não está se lembrando de mim?”. No mesmo instante reconheci naquele cara bonitão meu melhor amigo aos 7 anos, magro e suado em sua bicicleta.
É quase inacreditável e um pouco surreal dizer que o Niwton voltou a ser meu mais incrível parceiro depois de 13 anos e a fase de adolescência totalmente distantes. Apesar de morarmos a centenas de quilômetros um do outro, é ele quem me liga perguntando dos planos para o final de semana, tentando coincidir ao menos um dia das férias e feriados para estarmos no mesmo lugar. É o cara que move montanhas para irmos à festa de formatura de outro colega de infância. É quem se preocupa com os meus problemas, torce pelos meus sucessos, ouve meus segredos e ri das minhas piadas. Depois de algumas semanas sem telefonema, é para ele que faço manha dizendo que não me ama mais, só para ele admitir (mais um vez) o quanto gosta de mim.
Quando alguém supõe que somos ou fomos namorados, revejo algumas cenas da nossa infância como um filme em super 8 e não posso deixar de sorrir. O Niwton é o cara por quem eu me apaixonei quando tinha 6 e escolhi ser sua amiga para não perdê-lo nunca mais.
Tags: Thundercats, ursinhos carinhosos
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Janeiro 21, 2008 at 8:29 pm
Nhá eu tô acompanhando as histórias dos seus amores, e essa última é simplesmente linda \o/
Ah e.. o jeito como você escreveu o final ficou perfeito. Emociona!
=] Depois que vc terminar essas, escreve uns contos, hehe, vale a pena ler os textos de pessoas que realmente sabem transmitir os sentimentos ;)
Bjim :*
inté o próximo post o//
Janeiro 22, 2008 at 12:41 am
Pera ai, é Niwton mesmo? Tipo… com `i`?
Vc tá de brincadeira comigo, né?
Resposta da Rach: Vaai dizer que vc conhece o Nirrtu?
ahahahahaha
Janeiro 27, 2008 at 9:40 pm
Seu romantismo exacerbado, sua nostalgia nos contagiam!
Parabens
Quem dera c todos fossem assim.
Fevereiro 11, 2008 at 7:23 pm
[...] Inesquecível também foi uma festa que teve máscaras de bichos feitas de papel e presas à cabeça com elástico. Obviamente escolhi a de gatinho e os meninos brigavam pelas poucas de leão. Acho que falei desse aniversário num dos textos da série Pequenos Romances. [...]