Patinação

Um dia bestamente ruim. Não, eu não descobri que sofro de uma doença terrível, incurável ou que cause grande sofrimento. Ninguém que conheça e aprecie muito morreu. Não fui demitida e nenhum chefe fez menção de comer meu fígado. Não discuti com meus pais nem com algum amigo. Não bati o carro. Não cortaram errado meu cabelo.

Mas a gente sabe que para o dia ser particularmente triste não é necessário nenhuma tragédia. Só um ou outro pensamento fora de hora ou aquela comparação recorrente que (você sabe) é capaz de sabotar o sorriso.

Assim, me flagrei revendo este glorioso dia que, para minha aflição, ainda não acabou e tem tudo para ser fechado com emocionantes cenas finais.

Acordei – sozinha – muito cedo, mais do que a sanidade mental recomenda. Fui para um emprego que não me traz nenhum prazer especial. Não é o tipo de trabalho para o qual me preparei tão arduamente durante a faculdade, nem aquele que escolhi, mas que mantenho por alguma conveniência modorrenta. Voltei para casa, novamente sozinha, dirigindo pela cidade que não gosto mas que me forço a habitar, para uma noite sem perspectivas nem significados.

Quando percebi que o choro que segurava desde o almoço me escaparia assim que pisasse no apartamento, tentei incluí-lo na programação do dia, de maneira a alterá-la o menos possível. Pensei ‘posso chorar até as sete e meia; depois vou precisar de 30 minutos para tirar o inchaço do rosto e dos olhos e então ir para a academia’.

Moderar o tempo de choro como mais uma das atividades vazias do meu cotidiano foi o grande desalento desse dia.

ps: em parte isso tudo é devido à TPM.

Explore posts in the same categories: cruz credo vade retro

8 Comments on “Patinação”

  1. Monsores Says:

    Entendo perfeitamente. Não tenho o hábito de chorar, e lamento por isso, mas sei que há determinados dias que teria sido melhor não acordar. Acho pior ainda quando não há razão aparente.

  2. Paulo Says:

    Entendo e me identifico. Realmente, às vezes não é necessário muito. Vou guardando as frustrações aqui dentro, e quando a coisa se acumula demais, um scrap ruim de orkut pode por tudo a perder.
    Me solidarizo contigo.

    Beijos

  3. Luis Says:

    Caramba! Te admiro há tempos, mas só agora tive coragem e razões pra comentar. Vc tem um estilo de escrita mais legais da blogsfera (simples e cativante), é linda, tem sorte de poder correr o mundo, etc…

    Tens todo direito de ficar triste, mas desejo que essa tristeza dure só um dia, pq a alegria que tu expressas aqui é contagiante!

    Grande beijo!

    Resposta da Rach: Opa! Fico até sem graça… obrigada mesmo.


  4. Se tudo estivesse escrito na 3a. pessoa do singular, o que acabei de ler seria um belo texto literário, de tanta intensidade quanto a desse desalento de que falastes…

    Beijos, menina.

  5. Giqqa Says:

    É por esses arroubos da TPM que eu não consigo me adaptar à pílula anticoncepcional. É como se eu tivesse uma válvula de escape. Um momento onde eu coloco tudo pra fora, minhas frustações, minhas alegrias, minhas angústias, tudo aquilo que às vezes eu acabo guardando demais. Com a pílula, a vida perde as cores vivas e fica tudo que meio em variações de cinza. Com as variações do meu ciclo, eu posso ter percepções completamente distintas da mesma coisa. Muito louco isso.

    Resposta da Rach: Menina, me fala o nome dessa pílula agora, que eu tô doida pra ter um pouco mais de cinza nesse arco-íris…

  6. rafael Says:

    Legal, Rachel, mas por que mais cinza? Agendar o choro já não é cinza o suficiente?

  7. Mamãe da Rach Says:

    Ô, minha filha… Vc devia ter falado comigo antes… Tenho uma receita infalível…
    Pegue um pote de catupiry (não desses vagabundos que vc compra para economizar dinheiro para amaciante, compre um bom) e com uma colher das de sopa sirva-se de uma colherada cheia (mas cheia mesmo), engolindo tudo de uma vez, tipo o mundo vai acabar e não vai dar tempo de sentir o gost…), agora coma outras duas colheres bem devagarzinho, brinque um pouco com o formato de onda do catupiry na colher. Muito bem, a segunda parte pode ser feita com uma barra de chocolate puro (quero dizer sem frutas, pedaços de bolachas reaproveitadas pela indústria, etc), mas o ideal é que seja feito com um sorvete de chocolate, pois teoricamente é só espuma. Oras, qual o problema em comer espuma??? Pois bem, livre da rebordosa do”engordei?”, sirva-se do sorvete (é importante comer no pote, gerencie este poder, tipo “eu poderia comer este pote inteiro se quizesse”). E a terceira parte, escolha um travesseiro ou almofada e FIGHT!!! Porrada mesmo, vale bicudo, croquinho, arremesso, grito, só não vale puxar costura (você não vai querer limpar tudo depois, e vai acabar sobrando para mim ou para a Dona Edivania)…
    Esta receita esta na família por gerações. Agora vc entendeu o que aconteceu com a mobilia da sala da sua vó… Desculpe-me, mas não foi o Saci quem fez aquilo…


Comment: