Rito de passagem

Saiu ontem a lista de aprovados na FUVEST, aquele vestibular demônio de 28 em cada 10 alunos de cursinho e colegial. Um primo muito querido conseguiu uma vaga para o curso de Administração. Há exatos 3 anos, era a vez da minha irmã passar, em Engenharia Mecânica. E em 2001 também fui uma feliz contemplada.

Tinha 17 anos e recém terminado o colegial. Não sabia absolutamente nada do que iria fazer pelos próximos meses: havia prestado apenas 3 vestibulares, justamente para as universidade públicas mais concorridas do estado de São Paulo, talvez das mais concorridas do Brasil. Se não passasse em nenhuma, certamente iria amargar ao menos um ano de cursinho no mesmo esquema que havia sido a escola: fuça enfiada nos livros e ainda morando na casa de papai e mamãe. Não sei se iria agüentar. Todo o colegial foi um período de muita infelicidade, por vários motivos conjugados. Suportar mais um ano do inferno com o adicional da pressão para entrar logo na faculdade talvez fosse demais. Literalmente, eu definhava.

Cada caso de adolescente que presta vestibular é uma novela ímpar com enredo digno de Janete Clair. Como se não bastassem todas as dúvidas que assombram nosso sótão, ter de escolher o curso da faculdade é, na minha opinião, a mais difícil de todas. Faltam informações consistentes sobre a graduação, sobre o (real) mercado de trabalho, currículo de disciplinas, requisitos básicos – ninguém NUNCA havia comentado que eu deveria tomar aulas de desenho para não sofrer tanto com esquemas em relatórios – e, geralmente, sobram os conselhos idiotas. Lembro de ter ouvido dezenas de enxeridos experts dizendo para conversar com estudantes da área e profissionais já formados. Mas nunca disseram para ouvir os dois lados: quem amou o curso e é uma pessoa realizada na profissão e aqueles que não tiveram tanta sorte e pularam fora.

E, na época da divulgação das listas de aprovados, UNESP e USP liberariam as suas no mesmo dia. Com isso, havia a possibilidade de que minhas duas melhores chances já fossem pelo ralo num espaço de quatro horas. Angústia pouca é bobagem. Nem preciso dizer que quase não dormi naquela noite.

Não tinha grandes esperanças com a prova da UNICAMP. Era a mais difícil das 3, totalmente distinta de qualquer outra e para a qual eu tinha me preparado menos. Me agarrava à esperança de ter passado ao menos na UNESP: tinha mais candidatos por vaga, porém o modelo de questões era bem mais simples. Repetia hipnoticamente uma frase que tinha visto numa dessas camisetas promocionais de cursinho: o meu nome vai estar na lista, o meu nome vai estar na lista.

E tinha a Universidade de São Paulo. Na época me candidatei a um curso no campus de Ribeirão Preto, onde meu pai havia morado por 8 meses quando eu tinha 14 anos. Não lembrava muito bem da cidade, mas isso nunca teve importância; queria estudar na USP nem que a graduação fosse feita na lua. Não era um sonho, era um objetivo de vida: todos os meus planos, minha organização, minhas metas, tudo focava em passar na FUVEST e estudar na USP. Mesmo não tendo certeza do curso (eu nunca tive, e depois de dois anos de graduação minha certeza era de que tinha errado), mesmo quando aquela vidinha miserável e tremendamente infeliz do colegial ameaçava assombrar o cotidiano de universitária, eu nunca quis ter estudado em outra instituição.

No dia 09 de fevereiro, uma sexta-feira, as listas finalmente foram divulgadas nos principais sites. A internet parecia movida a manivela e tudo ficou congestionado tarde adentro. Não conseguia acessar nenhuma bendita página e começava a me desesperar. Então, uma prima telefonou: tinha conseguido ver a lista da UNESP e meu nome realmente estava lá. Eu não iria fazer cursinho. Não precisaria mais estudar física. Meu cabelos parariam de cair e pesaria mais de 45 kgs. Não era o grande target, mas era uma aprovação; comemorei aliviada.

Faltava ver a lista da FUVEST. Tinha a impressão de que todos os estudantes do país tentavam acessar a mesma página, ao mesmo tempo. Fazia e refazia contas cabulosas para prever a pontuação final. Eram 38 candidatos para cada vaga do curso. Na minha cabeça, conseguir a façanha de estar entre os 40 melhores tinha a mesma probabilidade de esbarrar no Dalai Lama enquanto tomava sol em Ipanema.

Aquela mesma prima telefonou novamente e não parava de repetir ‘parabéns, você merece’. Agradeci sem entender; ela já tinha avisado, já tinha dado ‘parabéns’ suficientes para toda uma geração de aprovados. ‘Não, você passou na FUVEST também’.  Eu tinha passado. Tinha conseguido. Estava entre aqueles 40. Talvez um dia realmente encontrasse o Dalai Lama vestido de laranja no Rio de Janeiro. Havia chegado ao meu rito de passagem e sobrevivido.

Alguns dias depois saiu a lista da UNICAMP e só fui aprovada lá pela quarta chamada, quando já constava como aluna do primeiro ano no campus de Ribeirão.

Desde então, vivemos um caso de amor à primeira vista. Tenho um imenso orgulho da universidade onde estudei porque é como ter orgulho de mim mesma, do que o meu esforço pessoal e vontade férrea conseguiram. Apesar de não ter sido sempre um sonho dourado, acredito piamente que foi o que me salvou de morrer de tristeza.

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7 Comments on “Rito de passagem”

  1. Giqqa Says:

    Outro dia, tava assistindo a um programa no GNT, acho que era crianças do milênio, e o apresentou pediu que fizéssemos um teste, era pra enumerar os cinco momentos mais felizes na sua vida e depois os cinco mais tristes. Parece que o tempo que vc leva pra um e pra outro diz mais ou menos como vc está se sentindo. Enfim, sem a menor sombra de dúvida, um dos momentos mais felizes da minha vida, foi o dia que eu recebí o resultado que eu tinha passado no vestibular! Sou bióloga tb, e estudei na UFRJ. Na época não tinha internet não e a gente tinha que esperar o resultado na folha dirigida, isso foi em janeiro de 1997. Até já tinha internet, mas não interativa do jeito que é hoje. O pai de um amigo foi até a sede do jornal e conseguiu o resultado de véspera. Recebí o telefonema umas 10 da noite! Eu nunca vou me esquecer porque era exatamente o que eu queria, a UFRJ aqui no Rio é a única que tem o Bacharelado em Genética e eu queria ser geneticista. Não que eu tivesse muita noção do que era isso, mas… Dois tios meus são biólogos, eles são donos de laboratórios de análises clínicas, mas eu queria fazer pesquisa. E deu certo, posso dizer que não me arrependo de nada, mas concordo com vc que os adolescentes devem conversar bastante com os profissionais da área antes de tomarem suas decisões. Eu, particularmente, acho que tô melhor como bióloga do que estaria se tivesse optado por comunicação ou arquitetura que eram as minhas outras opções.

  2. rafael Says:

    Eu abri a lista da Fuvest e o primeiro nome é A**** Juraski. Metido a besta, esse seu primo…

  3. Veio Says:

    tb passei na usp.


  4. -= Praticamente um conto do Manoel Carlos.
    (ih, agora foi ofensa pessoal, hein?)

  5. Lari Says:

    Cara, minha frustração que já tinha sumido aumentou horrores ao ler esse seu texto.
    Não fui aprovada nem pra 2ª fase da Fuvest.
    Enfiei minha cara os 3 anos inteiros do colegial nos livros, e no ano que passou, eu respirei fórmulas odiadas, desenhei mais mapas do que qualquer cartógrafo da idade média, entre outras coisas.
    Fiz 5780 simulados, e em todos (na cidade inteira) ficava no máximo em 3º lugar.
    Estudava com prazer porque eu tinha certeza que seria recompensada.
    Em um vestibular de uma faculdade particular de São Paulo ( uma semana antes da FUVEST) eu passei em primeiro lugar em Cominicação Social ( os 4 cursos mais ”badalados” do momento) Sei que não era nem um pouco de parâmetro pra USP, mas querendo ou não, a minha auto-estima subiu e eu sabia que poderia passar.
    O dia 25/11 foi um dos piores dias da minha vida. A correção do maldito gabarito me mostrou que , neste ano, eu estava inapta a estudar na Universidade de São Paulo.
    Após o choro de 3 dias, levantei a cabeça e não me deixei abater, havia mais vestibulares pra fazer.
    O meu sonho ( maior que a USP) era a Cásper Líbero. E eu também não passei.
    simples assim. ” Você também não serve pra estudar aqui”. Para minha sorte, no mesmo dia a Puc Campinas ”me acolheu”.
    E me mostrou que meu sonho não era a faculdade, e sim o que eu escolhi . O Jornalismo.
    É uma profissão certas vezes ingrata, mas é aquela na qual eu quero seguir desde que nasci. Todas minhas Barbies eram Jornalistas, eu tinha prazer em Brincar de jornal, em me informar e tudo mais.
    Graças a ”brincadeira de criança” eu também fui salva de morrer de tristeza. Eu vou realizar meu sonho. Mesmo sendo longe da Universiade de São Paulo.

  6. Marcelo Says:

    Puxa, que linda, sofrida e comovente história. Sinceramente, perdoe-me a franqueza, mas como integrante de uma minoria privilegiada, em um país de 3º mundo (embora o governo, e alguns empresários, economistas, veículos da mídia e imprensa o coloquem como uma Europa…) que vive de fachadas (se você não encontra 1 hospital e 1 escola pública descente nas 4 principais capitais, que dirá no restante do país) e possui um enorme índice de desigualdade social como o Brasil, acho que você não fez nada além do que se poderia esperar de você, principalmente os seus pais que te sustentaram todos estes anos. Agora, realmente, se você fizesse isso trabalhando (8hs por dia, cobranças, nenhum afago na cabeça etc.), pagando contas, ajudando no dia dia da sua casa (lavar roupa, louça, fazer comida, varrer chão etc.), aí sim. Puxa, seria vibrante ouvir tal relato. Felicidade? Ok! Mas menos, muito menos querida. A vida ainda não lhe pôs a prova…

    Resposta da Rach: ‘decente’ é só com C.


  7. acho q meu nome deveria sai na lista mesmo


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