Série ‘Hoje o dia é meu’ – parte 2
A parte 1 está aqui.
Dos 24 aniversários até hoje – para o 25º ainda faltam 2 semanas – me recordo de 20 deles. E dois foram bastante marcantes, como vocês saberão a seguir.
Em 2001, o dia 05 de março caiu numa segunda-feira. Mas não qualquer segunda-feira: era a segunda-feira primeiro dia de aula na faculdade e eu era caloura. Sabe o que significa isso? Significa que uma porrada de gente que você nunca viu na vida vai lhe abraçar e cumprimentar pela data, pessoas que você ainda nem sabe o apelido (que acaba virando nome próprio depois de poucas semanas) mas que lhe acompanharão por um boooom tempo em provas, baladas, aulas chatas, relatórios, noites viradas em estudos e muitas viagens. Significa que todos os veteranos tentarão tirar uma casquinha extra da ‘menina da 38ª que faz aniversário hoje, velho!’, enchendo a caloura de beijos e tchutchus. Significa que já na primeira aula seu celular tocará incessantemente, acusando ligações de seus amigos de colegial e muitos, mas muitos familiares. Significa que você estará tão feliz que vai considerar tudo um grande presente especialmente escolhido para aquela data, até o ônibus lotado e o bife 007 do bandeijão. Significa que percorrendo o campus debaixo de um sol inclemente procurando a biblioteca, você vai suar em bicas e saber que aquelas serão memórias perenes. E você vai sorrir, o dia inteiro, até ficar com as bochechas doloridas da contração.
Do que mais lembro desse dia específico? Lembro de estar cercada de gente desconhecida até na casa em que morava, de namorar um cara havia apenas um mês e de não saber outro trajeto a não ser ‘casa-ponto de ônibus-casa’. E que meu pai havia me enviado um vaso de flores cor de rosa e eu nem tinha onde colocar porque meu quarto era de uma simplicidade monástica. Entretanto, estava plenamente satisfeita. Plenamente realizada. Plenamente feliz. Tinha escalado uma montanha absurda de difícil para estar ali e a vista era sensacional.
O outro aniversário inesquecível ocorreu quatro anos depois. Neste intervalo trancafiei num porão escuro do cérebro pensamentos impertinentes que insistiam em vagar de vez em quando. Achei que assim desapareceriam, mas os malditos ficaram por lá fermentando e crescendo como fungos imensos. Consegui mantê-los aprisionados durante toda a graduação; um dia, porém, as portas foram escancaradas e os pensamentos, livres, atacaram meu cérebro indefeso. Vivo de acordo com eles, desde então, e garanto que sou mais feliz assim.
Em 2005, 05 de março caiu num sábado, o sábado da Semana do Calouro. Minha formatura havia sido três meses antes, em dezembro. Estava prestes a fazer 22 anos e me preparando para o mestrado na área em que tinha estagiado durante longos dois anos e meio de graduação. Não era exatamente um objetivo de vida sonhado e desejado, mas também não conseguia imaginar outro caminho para seguir. Todos os meus colegas emendavam o mestrado depois da graduação, eu faria como eles. O problema é que não queria notar que eu não era como eles.
Na quinta-feira, 03 de março, aconteceu a última festa daquela semana de recepção aos bixos. Bati o carro retornando para casa, numa avenida na saída da faculdade. O roteiro foi completo: não restou muito do carro; porém, graças ao cinto, restou tudo de mim. Ainda assim tive que ser socorrida por desconhecidos (eles, novamente!), dei uma voltinha de ambulância até o hospital, fui radiografada de cima a baixo e suturada com três pontos na cabeça. Para isso, tiveram que cortar uma mechinha do cabelo que, em meu desespero, se transformou em tufos suficientes para uma peruca perfeita. Em plena madrugada, acordei minhas duas melhores amigas para que me buscassem no hospital.
No dia seguinte, o grande momento da verdade. Ligar para papai e mamãe e contar que havia sofrido um acidente e estava bem, apesar de tudo. E tentar convencê-los e não virem em meu socorro imediatamente, até porque não havia muito o que fazer. Essa foi a véspera do meu aniversário. O grande dia passei-o sozinha, meio de molho, meio de luto, cheia de hematomas e com a cabeça enfaixada, sem poder lavar o cabelo – ou que o tinha restado dele. Repensei um pá de coisas que andavam por um rumo totalmente errado naquele pedaço de caminho: minha irresponsabilidade, que ameaçava tomar proporções indesculpáveis; minha carreira, sobre a qual eu insistia em mentir para mim mesma; meus amigos, feitos mais de conveniência e coleguismo que de sólida amizade.
Costumo dizer que nesse aniversário ganhei três preciosos presentes: três pontos na cabeça, como uma recordação física que não me deixa esquecer meus limites e minhas intolerâncias, e também responsabilidade e firmeza. Firmeza para jogar o diploma recém-adquirido para o alto, dar um basta a uma situação que nunca me satisfez e traçar uma rota segura para voltar ao antigo sonho do Jornalismo. Resposabilidade para saber que, a partir dali, eu estava sozinha e precisava recomeçar. Mas isso já não me assustava mais.
Tags: anivesário, bixo, calouro, recepção aos bixos, semana do calouro
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Fevereiro 19, 2008 at 12:34 pm
-= “meus amigos, feitos mais de conveniência e coleguismo que de sólida amizade” … como você se deu conta, efetivamente, que isso era assim?
Resposta da Rach: tu bate o caro. Não sobra nada dele, só os documentos e o boletim de ocorrência dizendo que não, não sobrou nada dele. Tu tá no hospital e passa a semana seguinte entre hospital pra tirar pontos e fazer curativos e conseguir a papelada necessária para o seguro. E tenta não se enlouquecer nem enlouquecer seus pais.
Sabe… é um bom momento para verificar quem fica ali com vc e quem se manda porque não tem mais carona nem companhia pra balada :P
Fevereiro 19, 2008 at 3:27 pm
-= Foi o que eu imaginei… mas eu queria “ouvir” você dizer…
Resposta da Rach: pior, não foi a última vez que passei por isso. Um ano e meio depois, quando roubaram meu carro, pude mais uma vez traçar uma linha dividindo amigos de colegas e esses de oportunistas :/
Fevereiro 19, 2008 at 4:23 pm
Devo concordar com vc. Um dia acontece alguma coisa (seja ela toscamente boba, ou absurdamente péssima) e a situação te faz ver que AMIGOS mesmo, são poucos… colegas, oportunistas e colegas-oportunistas são quase uma erva daninha de rápida proliferação (e de óbvia péssima qualidade) q mtas vezes se disfarçam mto bem… bom, mas enquanto sobrar, nem q seja 1 único verdadeiro amigo, creio q sempre seremos salvos…
Boa sorte no próximo niver q tá chegando… sem acidentes…
Fevereiro 19, 2008 at 4:41 pm
Vc foi muito corajosa em tomar as rédeas da sua carreira e guiar conforme a sua intuição. Deve ter muito orgulho disso.
Fevereiro 19, 2008 at 11:57 pm
-= A pergunta de um milhão de dólares: “Você confia nos amigos que tem agora?”
Resposta da Rach: a gente sempre acha que pode confiar em quem chama de ‘amigo’. Se não, não chamaria eles assim, certo?
Não é o dia-a-dia nem os probleminhas cotidianos que nos fazem abrir os olhos para quem a gente pode confiar e quem não pode; são os grandes problemões que aparecem de vez em quando.
Fevereiro 20, 2008 at 10:16 am
Desejo-te, desde já, um feliz e inesquecível aniversário! Bem-vinda aos “vinte e tantos anos”!
Fevereiro 21, 2008 at 2:35 pm
[...] ‘Hoje o dia é meu’ – parte 3 A parte 1 está aqui e a parte 2 ali. [...]
Março 5, 2008 at 4:30 pm
[...] ‘Hoje o dia é meu’ – parte 5 e ÚLTIMA Aqui estão a parte 1, parte 2, parte 3 e parte 4. [...]
Março 7, 2008 at 10:24 pm
[...] não é meu… mas tá chegando! Não entendeu nada? As partes um, dois e três estão aqui, aqui e aqui também. Não esqueça de me [...]