De um dos meus pré-conceitos

Eu tinha horror a música cantada em espanhol. Não sei se por ter ouvido Shakira demais na pré-aborrescência ou talvez por aquele sotaque Julio Iglesias me lembrar um Wando ibérico; a verdade é que não sei quando nem com se desenvolveu minha birra. Mas era começar os ‘yo’ e os ‘tu’ para que as comportas das minhas reclamações fossem abertas e eu derramasse os piores impropérios contra o idioma de Evita. Aliás, aquela porcaria de filme com a Madonna mandando a Argentina não chorar por ela sempre teve lugar cativo no meu top 10 topada de dedinho do cinema mundial.

Daí que no ano passado estive por várias vezes em países da América Latina e até peguei uma ou duas baladinhas durante as viagens. Estava tudo indo bem até minha última passagem pelo México. Era um estabelecimento no esquema bar com música ao vivo, aquele tipo de lugar insuportavelmente chato e cafona em qualquer lugar do mundo, mesmo se na Europa Oriental e com sotaque croata. Gente, eu não gosto de bar com música ao vivo nem no Brasil (talvez especialmente no Brasil), mas essa balada mexicana em particular estava terrivelmente bizarra. A banda era medonha e o som estava descompensado nos agudos; assim, qualquer ‘tí’ e ‘mí’ ficava dez vezes mais insuportável. O ritmo geral misturava um mambo com rumba com samba e mais algum desses outros tipos latinos de música. E ninguém do grupo com quem estava entendia minha desanimação. Para dar uma idéia do absurdo da coisa, tome aquela novelinha estúpida Kubanakan e junte com alguma produção venezuelana de quinta categoria. Acrescente três acordes fajutos de RBD e uma estrofe do Ricky Martin. Pronto: você terá uma noção geral de como foi a minha noite.

Foi nessa viagem que percebi a força do tal do reggaetown nos países latinos. Antes de chegar ao México tinha estado na Bolívia e coincidentemente um grupo chama Calle 13 faria um show em La Paz por aqueles dias. A comoção geral foi como a da passagem do U2 pelo Brasil: gente dormindo nas filas, tiozinhos se matando por ingresso, montes e montes de reportagens imbecis e uma popularidade muito maior do que na visita do papa nazista alemão. Enfim, uma muvuca sem tamanho para um grupinho bem vagabundo – e essa afirmação vale tanto para o Calle 13 quanto para o U2. Quem se der ao trabalho de procurar por umas músicas na internet vai concordar comigo.

Mas foi no México que percebi como o reggaetown faz sucesso entre os nossos hermanos hablantes del idioma de Cervantes. Gente, assim como aqui tem balada só de hip hop e as meninas se descaderam rebolando até o chão as músicas black, lá o mesmo ocorre com o reggaetown. Que é mais ou menos um funk com hip hop com pop só que cantado em espanhol. A musiquinha mais cachorra era El teléfono, cujo o refrão fala sobre a saída que o cara arranjou para pegar a garota sem que os pais dela interferam:

Coisa fina, né não? Pois amostras como essa só vinham para reforçar meu horror absoluto a músicas em espanhol. Daí que ontem estava pulando de blog em blog, atualizando minhas leituras depois de tanto tempo longe da internet, quando me deparei com um cantor argentino chamado Jorge Drexler.

Quem acompanha as premiações do Oscar vai se lembrar dele como o ganhador da estatueta em 2005 pela canção Al otro lado del rio – que foi desgraçadamente interpretada pelo Antonio Banderas na ocasião da festa.

E para minha satisfação, o cara é sensacional. De uma sensibilidade e delicadeza impressionantes. Minhas duas prediletas, até o momento, são Antes e Fusión:

 

Mas ele tem várias outras, inclusive uma fofa com meu nome, Raquel. Para quem tem sérios pré-conceitos com a música dos hermanos, sugiro ouvir um pouquinho do Drexler antes de espalhar aos quatro ventos que as únicas coisas boas que a Argentina produz são os vinhos e as carnes.

Até porque o futebol dos caras também é um espetáculo.

update: de acordo com a Senhorita Rosa, Jorge Drexler é uruguaio, e não argentino. Hehe. Obrigada, querida!

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13 Comments on “De um dos meus pré-conceitos”


  1. Figura você. Os argentinos iam ficar felizes se o Drexler da música fosse deles, mas no es, amore, é uruguaio.
    Também achei a princípio que fosse argentino e fiquei desapontadíssima quando descobri. Se não me engano, a Maria Rita já cantou uma ou duas músicas dele.
    Besitos,


  2. -= o espanhol e suas variantes sempre me incomodaram… mas em alguns casos eu até simpatizo, como – por exemplo – as músicas raivosas do Orishas e melancólicas do Manu Chao…

    … fora isso, eu não levo a sério por muito tempo filmes em espanhol… começo a rir.

  3. edu Says:

    Rach, já que é pra falar bem de argentinos, tem o pessoal do Gotan Project. Misturam tango com música eletrônica, formando um lounge-jazz chique. Acompanha lounges e jantares à luz de velas!

  4. Ms. Granger Says:

    Ah… não deixando de respeitar a opinião alheia mas… putz, eu AMO o U2 e vc adora avacalhar os caras! Dá uma chance pros velhinhos… hehehehehe

    Tb tenho essa birra do espanhol… me parece mto “tabajara”… vai ver pq mtos imbecis acham q pra falar espanhol basta misturar umas palavrinhas manjadas no meio do português: ISSO ME IRRITA muito!

    Resposta da Rach: querida, vc não viu meu chefe (futuro ex-chefe) falando espanhol. Ele tem as manhas de bota palabra em italiano (!!) fazer sotaque fake e ainda espalhar por ae que domina o idioma!!!

  5. Edson Arantes do Nascimento Says:

    Rachel, acho que você e seu blog foram, para mim, descobertas das mais interessantes na internet nos últimos tempos. Mas como ninguém é perfeito, essa sua mania de falar bem de argentino e ainda por cima vestir a camisa da seleção portenha… pelamordedeus!!!
    Imagine você vestida com a camisa do São Paulo (que espetáculo!) no meio da Independente, cantando: “Salve o tricolor paulista, amado clube brasileiro…”
    Imaginou?
    Pois pra mim é mesma coisa quando vejo um brasileiro vestido com camisa argentina e ainda por cima dizendo que o futebol deles também é espetáculo.
    Aí é gostar demais duma coisa errada…

    Resposta da Rach: primeiramente, queria registrar a honra que temos, meu blog e eu, em receber tão ilustra figura. O Rei, assim, em pessoa, dizendo que fomos uma descoberta interessante!
    Infelizmente, digníssimo, tenho que discordar do senhor nesse ponto: sou uma fã incondicional do futebol argentino, especialmente da nova safra. Não que eles façam qualquer vulto à sua geração, Majestado, mas veja bem, eu só nasci em 83…

  6. Veio Says:

    eu já encostei o indicador direito na shakira

  7. Lucas Medina Says:

    Assim que se faz…
    Música em espanhol é interessante, em muitos casos.
    Mas é aquela história, música espanhol ou é bem feita ou então melhor nem ouvir.
    Não é que nem canção em inglês que tu consegue engolir mesmo que seja uma merda…

    O problema é que todo mundo trabalha contra o espanhol. Ae sempre fica a rejeição leve inconsciente… Ficar vendo o Luxemburgo e o Tevez hablar, de fato, não faz bem.. hehe

    Resposta da Rach: AHAHAHAHAHAHAHAHAHA MTO BEM LEMBRADO!

  8. Renata Says:

    Rachel,

    A discografia do Jorge Drexler foi uma descoberta fantástica feita há uns 2 ou 3 anos. De fato, antes dele eu tinha uma certa aversão pelo idioma espanhol por todos os motivos citados anteriormente, mas ouvir Jorge Drexler é uma das coisas mais maravilhosas que existe.
    Sim, ele é uruguaio…:P

  9. Gui Says:

    Como tudo na vida, tem que seprar o bom e o ruim.
    Mas eu acho shakira o maximo!

  10. Tainá Says:

    Eu adoro Jorge Drexler. As músicas são simplemente deliciosas. A música junto com Maria Rita, que a Senhorita Rosa se referiu aí em cima é Soledad, delícia de som!

    http://grafoterapia08.blogspot.com/2008/02/da-srie-msicas-eu-ouo-mil-vezes.html

  11. Paulo Torres Says:

    Essa música Raquel, do Drexler, foi regravada pelo Nenhum de Nós, em castelhano mesmo, no último disco de estúdio deles, o “Pequeno Universo”. E eu andei descobrindo algumas boas bandas hispanohablantes recentemente, de indie rock a pop eletrônico.

    Ruim é que as músicas em espanhol que chegam ao Brasil são ou tosqueiras tipo reggaton, ou gente insuportavelmente chata tipo Fito Paez e companhia.

  12. Carol Golfeto Says:

    Eu sou outra que tinha o maior preconceito com tudo que era latino, inclusive as músicas, até perceber que nós, brasileiros, não somos nada mais que… latinos! Mas não nos damos conta disso. Acho que fomos muito “americanizados” e aceitamos a idéia de que o latino é ruim, vale menos…
    Tudo começou há um ano, quando comecei a estudar espanhol (por obrigação). Imediatamente me apaixonei pela língua, pela cultura, pelo povo latino!!!
    Agora, nem Shakira me incomoda mais… Pelo menos eles não têm vergonha de seu jeito “caliente”, passional. Não são como nós, idiotas, que fingimos não ser também um bando de noveleiros…
    Existem, ainda, artistas latinos cujas letras são mais sofisticadas… Por ex.: Julieta Venegas, o próprio Drexler e até o popero Juanes (principalmente os dois primeiros discos).


  13. Jorge Drexler é uruguaio, de Montevidéo. É um dos melhores artistas no cenário musical internacional, mas acho que tu deverias ouvir outras coisas em espanhol, afinal existe muita coisa boa além do português e inglês. Sobre tu não gostar de música em espanhol, creio que seja por ter apenas ouvido bombas até o momento.


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