Monocotiledôneas e dicotiledôneas, paralelinérvias e reticulinérvias

Minha família é recheada de pessoas com queda para a jardinagem: minhas avós, tias, minha mãe e talvez até meu pai e meu avô, na época em que tinham chácara/sítio de subsistência – o que era muito comum no interior de São Paulo, lá pela metade do século passado, entre as famílias italianas mais humildes. Não sei se por essa tradição rural de necessidade mesmo (muito do que se comia à mesa vinha diretamente da hortinha dos fundos), mas todo o meu clã, tanto do lado materno quanto paterno, tem esse hábito adorável de jardim e quintalzão. Todos, menos eu.

Entre meus trocentos primos espalhados por esse mundão de meo deos, sou a única bióloga. E a única integrante que não tem o menooooor jeito – nem a menooor vontade, admito – para esses assuntos botânicos amadores. Mesmo minha irmã tem seus momentos mãos na terra e à vezes ajuda minha mãe a trocar planta de vaso e a adubar uns pedaços de jardim. Aliás, esse lance de jardinagem, apesar de amadorístico, tem uns procedimentos bem próprios: botar adubo, calcário (se a terra é muito ácida), molhar não sei com que freqüência, calcular tamanho de vaso, rechear com pedrinha ou com xaxim, usar uns suportes para trepadeiras, enfim, todo um manual recheado de ‘material e métodos’ inteligíveis apenas para os iniciados. Tem ainda uma conversa de mudar o vaso de lugar, porque a planta gosta mais/menos de sol, de sombra… e aí conforme vamos mudando de estação no ano, os vasos nos fundos da minha casa vão ziguezagueando pelo quintal. Como disse, é um mistério revelado somente aos escolhidos. 

E certamente esse gene ame as plantinhas! pulou a minha pessoa dentre as gerações do clã. A única incursão pela agricultura que adoro fazer e na qual tenho relativo sucesso é plantar feijãozinho em tufos de algodão molhado, dentro de potinhos de iogurte. A primeira vez que fiz essa ‘experiência’ foi no pré-primário e ainda existe uma filmagem caseira em que apareço toda serelepe e banguela mostrando meu querido pé-de-feijão-de-quatro-dias. 

Aos 14 anos, meu quarto tinha um minúsculo jardim de inverno com clarabóia. Na verdade uma porta dava para um espaço de quatro metros quadrados a céu aberto, com chão de cerâmica e onde batia sol por alguns momentos do dia. Mas inventei de transformar o local num nanojardim e enchi de pequenos vasinhos de plantas surrupiados da minha mãe. Devem ter durado umas três semanas, se muito. E isso porque tinha gasto uma puta grana com apetrechos de jardinagem, tipo pazinhas e luvinhas e suportezinhos fofos, e com revistas ESPECIALIZADAS em jardins de inverno. Vocês tem que concordar que eu não tinha jeito, mas era esforçada.

Depois disso, desisti. Fiz Biologia e todas as disciplinas de Botânica me entediavam mortalmente. Trabalho de campo em que tinha que me embrenhar no mato e contar espécime vegetal, então, era motivo para semanas de reclamações sem fim. Ou então fazer as benditas exsicatas com folha, flor, fruto… um pé no saco. A foto abaixo, feita durante o último projeto com excursão a campo no quarto ano da graduação, não me deixa mentir. Reparem na minha expressão de alegria, boa vontade e satisfação.   

matéria de eco vegetal - graças a deos acabou

Hoje em dia tento apenas não matar em dois dias as raras flores que compro. E nem perco tempo na floricultura pedindo as famosas dicas sobre quando molhar e onde deixar as coitadas. Já me conformei que de nada adiantará saber tudo isso: ao chegarem às minhas mãos, estão condenadas a um tempo de vida bem mais curto que o usual.

ps: se você curtiu esse texto, vai adorar este aqui também, do Ágora com Dazibao no Meio, do meu querido amigo Ricardo.

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13 Comments on “Monocotiledôneas e dicotiledôneas, paralelinérvias e reticulinérvias”

  1. Gabriel Says:

    Rachel!
    Você esqueceu de regar o seu jardim de inverno?!?!?!?

    Eu tenho uma renda portuguesa no meio da sala. É o máximo que consigo cuidar, mas está crescendo a olhos vistos.
    Se você não tem tempo de tratar das plantinhas, sugiro orquideas. São fortes pacas.

    A história do fogão virá… paciencia é uma virtude, pequeno gafanhoto.

  2. edu Says:

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
    Nesse ponto me identifico com vc… a única coisa q aprendi a plantar foi a mandioca.

  3. kirp Says:

    HAHA

    Eu já tive botânica na faculdade e é quase tão chata e insuportável quanto sociologia ou psicologia.

    Mas plantar é até legal. Eu tive durante quase dois meses uma planta carnívora. Dei comida, cantei pra ela dormir, molhava a terra, conversava com ela e tudo o mais. Só que ela morreu (na verdade acho que foi assassinada) pq alguém engasgou ela com barro =(

    Resposta da Rach: Poor thing! E qual era o nome da falecida??


  4. “ao chegarem às minhas mãos, estão condenadas a um tempo de vida bem mais curto que o usual.”

    evil

    huauhauhauhauhahuuahhua


  5. Vc é mesmo uma figuraça, Rach, mais um dos teus textos deliciosos!
    E em relação a plantas, pena que o teu apurado senso estético (vide os Tiffanny’s e La Perla, pra começar, mas com a exceção do seu pendor chicleteiro, que eu só perdôo porque sou seu amigo!) não te permita aceitar umas flores de plástico ou de pano. Mandaria algumas pra você! Mas diga lá, se fosse o caso de aceitar, pelo menos o pó vc tiraria delas, né? ;-P
    Beijos!!!

  6. Jorge Says:

    Já tive minhas experiências botânicas também!! Coloquei umas floreiras num lugar estratégico em casa (na verdade era um ponto de fuga dos gatos). Plantei algumas coisas, e durante alguns meses até que tinha coisa verde lá!! Tava até bonito.

    Hoje em dia as floreiras continuam (já que coisa ruim os gatos não esquecem), com terra e aquelas bolinhas de sei lá o que no fundo, mas planta que é bom…..

  7. Caio Says:

    Bom, levando em conta que adoro bonsais e já consegui “descuidar” de 3 que não duraram mais que 6 meses…não sirvo pra esse tipo de coisa.

    Muito bom o teu blog! =)

    Beijo.

  8. Fernando Says:

    Rachel, faça como a minha avó, que tem um jardim de inverno com uns 30 m2 em casa, mas como ficou de saco cheio das plantas, colocou grama artificial no chão, e plantas de plásticos pelos cantos do lugar.

    E vou te falar que até que ficou massa. É bem estiloso deitar lá e ficar de boa, só curtindo um solzinho de inverno.

  9. Monsores Says:

    Rachel, pois eu cheguei até a trabalhar numa empresa que produzia sementes, e ainda assim, não peguei gosto pela coisa. Muito pelo contrário.

    E minha familia inteira gosta de plantar e etc…

    Olha, depois desse ponto em comum e do fato de você gostar tanto quanto eu do “Sem licença para dirigir”, já faz mais sentido te mandar o tiffany’s ring lá.

    E a propósito, como você mudou, né?

  10. Gui Says:

    Gente, eu nao sei plantar nem bananeira – no sentido figurado.
    Muita vontade de ter uma plantação…rs
    beijos

  11. kirp Says:

    kirp responde: chamava-se Saddam. Se tu tiver com vontade de plantar algo, compre uma carnívora! É muito legal. :D

  12. Thássia Says:

    huahuahauhauabuhuahuahuahuahauhaua

  13. miguel Says:

    caraca isso n ajudo em nada


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