A adorável sincronia do sono

Não estar namorando tem dezenas de vantagens que, a meu ver, são incríveis. Nem vou citar as clichês ‘independência’ e ‘liberdade’, mas só o fato de NÃO ter que participar de almoços de família na casa de famílias alheias já é uma PUTA vantagem, né não? Ou aquela briga para decidir que filme ver no cinema, ou em qual restaurante jantar, ou whatever. Enfim, não sou grande entusiasta dos relacionamentos tradicionais e sérios.

Mas às vezes me dá uma saudadinha manhosa da época de committed (committed real, não só de orkut). Em feriadinhos como esse, o melhor programa do mundo era encher a casa de comidas de criança e outras coisas gostosas, locar 800 DVDs e passar os dias inteeeeiros na cama, vendo filmes, ouvindo música, namorando, ficando ’de preguiça’, pegando o cheiro do lençol e deixando o lençol com o seu cheiro. No domingo à noite dava até tristeza ter que voltar à vida real e saber que a semana estava começando, de novo. Porém, ao menos tínhamos matado as saudades, recarregado as baterias, dormido e comido muito. E namorado até achar que o peito vai rebentar de… de… afeto.

Ai-que-delícia…

Há coisa de dois anos achei esse poeminha pela internet. É o que melhor traduz esse sincronismo que alguns casais têm a sorte de repartir, depois de algumas noites de sono e de sexo muito bem aproveitadas.

TODA NOITE
João Paulo Cuenca

Dormimos com braços e pernas
entrelaçados como tentáculos,
enredados em estranhas combinações ,
coordenadas por regras específicas,
previamente ensaiadas para
apoiar a cabeça no mesmo travesseiro,
compartilhando sonhos
e reminiscências noturnas
(um invadindo as lembranças alheias,
reescrevendo o passado que não viveu),
ou deitar a bochecha contra o tronco do outro,
ou mudar a posição dos corpos no meio da noite:
quando eu estiver com a mão dormente,
e sentir necessidade de virar para o outro lado,
um movimento sutil descolando
o meu braço
da sua nuca
irá disparar uma série de passos complexos
e nós,
em poucos segundos,
voltaremos a nos abraçar,
agora em posição oposta:
o seu braço sobre o seu peito,
a sua perna abaixo da minha perna,
meu joelho apoiado na sua coxa,
as mãos dadas em encaixes geométricos,
seu nariz tocando um ponto específico da minha nuca,
soprando um ar de segredos na minha pele,
sibilando uma música diferente a cada noite,
e a cada noite o seu corpo seria
como uma cidade diferente,
de esquinas, labirintos
e línguas estranhamente familiares,
que eu percorreria com sabor de despedida e assombro,
sabendo que seria a última vez,
me esforçando sem sucesso para não
me apegar às suas ruelas e canais retorcidos,
jardins coloridos
e iluminados cafés.

E bom feriado para vocês ;)

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7 Comments on “A adorável sincronia do sono”

  1. Roberto 3 Says:

    é…

  2. rafael Says:

    nos amamos feito dois pagãos
    Teus seios ainda estão nas minhas mãos
    e na bagunça do teu coração
    meu sangue errou de veia e se perdeu

    na desordem do armário embutido
    Meu paletó enlaça o teu vestido
    E o meu sapato ‘inda pisa no teu

    http://letras.terra.com.br/chico-buarque/79060/

  3. Ms. Granger Says:

    Ai… me deu até uma deprê…

  4. Felipe Says:

    Oi. Vi um comentário seu no blog da Soninha de sei lá quanto tempo atrás, achei o endereço legal (coisa errada? hmm) e resolvi entrar. Me surpreendeu. Gostei do que vi. E do que não vi. ;-)

  5. Líbene Fernandes Says:

    Oi Rachel, esse post foi de suspiros mesmo como disse a Srta. Rosa, dá saudade desses momentos.

    E Rafael, essa é uma das melhores dele..

  6. Roger Says:

    São muitas as vantagens e desvantagens. Uma delas é o desperdício dessa beleza toda.
    E você não é a primeira bela que conheço a optar pela solteirice, o que nos leva a concluir: é feio o futuro da humanidade.


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