Prezado fulano, segue arquivo anexo conforme solicitação via contel
Um dia, uma dessas empresas fajutas de recolocação profissional criou o termo ‘proatividade’ e meteu no currículo de alguém. Mas o que significa essa porra?, perguntavam as pessoas mentalmente sãs. Seilá, mas achei bonito, respondia o herege. E por algum motivo que está muito além da minha compreensão, essa merda de palavra pegou. Não há currículo, palestra de auto-ajuda, gincana vagabunda de integração de empresa em feriado religioso que não use em quantidades industriais a tal da ’proatividade’. Se você tem a sorte de nunca ter ouvido a referida expressão, não se sinta ignorante; além de salas de RH e palestras motivacionais, em nenhum outro local do universo ela é utilizada. Para falar a verdade, teimo em acreditar que sequer exista.
No quesito palavras esdrúxulas e expressões singulares, o tal mundo corporativo é recheado delas – imagino que Scott Adams, criador do personagem Dilbert, concordaria comigo. Confesso que nas minhas primeiras semanas de recém-contratada na empresa fiquei perdida em meio a tantos termos obscuros ou que tinham um significado totalmente distinto para mim. Entenda: eu tinha acabado um curso de Ciências Biológicas, estava acostumada a falar de blástulas, mosaicos gênicos, habitat, corpo caloso e MAP-quinases. Na minha vida anterior, ‘feedback negativo’, por exemplo, tinha um sentido químico-fisiológico, completamente diferente desse utilizado aqui no escritório.
Mas há dezenas de outras. ‘Coaching’ e ‘Customer manager’ são as mais descoladinhas, para aquele povinho que adora um curso de desenvolvimento pessoal e que mantém livros do naipe de Os Segredos da Mente Milionária como guia prático e Pai Rico, Pai Pobre como guia espiritual. ‘Empreendedorismo’ participava do Desfile das Campeãs durante toda uma década; hoje, caiu para o grupo de acesso e sua popularização é tanta que 17 em cada 10 currículos para atendente do McDonald’s traz um ‘espírito empreendedor’ lá no ‘Habilidades e Competências’. A old school ’comprometimento’, entretanto, ainda parece ter vida longa, apesar de já estar gastinha.
O famoso verbo ‘gerir’ e seus correlatos (’gestão’, ‘gerência’, ‘gerenciamento’) são eternos, mas passam a impressão de prolixidade. Sabe? Quando você pode contar algo de maneira simples mas fica enfeitando a conversa. Assim, com monstruosidades como ’gerenciamento de crises’, ’gerenciamento de recursos’, ‘gerenciamento de projetos’ e ‘gerenciamento de tempo’ (!!), a moça que trabalha lá em casa uma vez por semana talvez já tenha virado ‘gerente de sabão em pó’ e agora seja responsável pelo ’gerenciamento de higienização doméstica’.
Que falta faz um Guimarães Rosa no mundo corporativo.
Tags: proatividade, gerenciamento, gestão, empreendedorismo, feedback, coaching, manager, comprometimento, termos do mundo corporativo
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Março 25, 2008 at 11:09 am
Nossa Rach, obrigado pelo texto. O que eu vou escrever já estava entalado aqui faz tempo! Concordo plenamente que os termos usados em administração, principalmente administração de pessoas estão desgastados e vazios!
Depois de um tempão escrevendo, acho que felizmente vou ser um dos primeiros a comentar. E aguenta que lá vem a história.
Antes, a defesa do RH
Eu trabalho com RH, respeito muito o trabalho feito e acredito sim que o RH possui um papel estratégico em qualquer empresa. Só que para que esta área contribua efetivamente com o negócio, ela deve derivar todos os seus processos (competências, recrutamento e seleção, treinamento e desenvolvimento, avaliação de desempenho, remuneração e benefícios) da estratégia da empresa (conhecimento do própirio negócio). O RH deve estabelecer políticas claras e manter um vocabulário específico para a empresa.
Agora o ataque:
A primeira coisa que temos que entender é que grandes executivos muitas vezes são excelentes gestores de pessoas, mas muitas vezes não sabem nada de RH. Como é possível? Você sabe determinar com clareza o que significa proatividade?! Acho que é justamente esse o ponto do texto, certo!? Você sabe definir com clareza o que é um “coaching” e quem deve ser o responsável por esse “coaching”? Com certeza os maiores executivos do mundo (e aqueles que escrevem os livros) têm, na cabeça deles, uma idéia bem clara do que significa cada um destes termos. E isso se aplica muito bem à realidade deles, à empresa em que eles trabalharam. Haja vista que muitos dos grandes executivos conhecidos, quando mudam de empresa, não alcançam o mesmo resultado alcançado na empresa que lhes trouxe seu sucesso.
Só que estes profissionais escrevem livros, dão entrevistas, falam sobre suas idéias revolucionárias, e são eles que põem na “boca da mídia” estas palavras: feedback, proatividade, gestão por competências, comprometimento com o resultado, liderança! LIDERANÇA é a melhor! Até uma secretária precisa de liderança hoje! Tudo porque um jornalista entrevistou Jack Welch um dia e ele soltou a palavra liderança! Alguém verificou o contexto? Alguém pediu para ele especificar o que era liderança? Não, afinal, quem vai questionar o trabalho de um dos maiores gestores de pessoas de todos os tempos? Além disso, a palavra liderança está escrita no dicionário. Com certeza ele leu a palavra no dicionário e sabe exatamente o significado da palavra. É justamente a liderança do dicionário que ele queria dizer quando deu a entrevista. Daí dá pra perceber porque ninguém entende nada do que o RH fala. A HSM publica uma matéria sobre remuneração variável, no dia seguinte tem gente mandando e-mail pra mim pra tirar dúvidas! Claro! A Exame publica uma matéria sobre “as competências que todo gestor deve ter”, na semana seguinte eu recebo 100 e-mails de consultorias de RH oferecendo “treinamento em liderança baseado em competências” no meu e-mail… Sem padronização não existe organização!
E justamente pela falta de padronização dos termos, por interpretações diferentes do que é um coaching, um feedback, a tal da proatividade, ou mesmo uma simples avaliação de desempenho, o RH se perde. Já peguei descrição de uma competência chamada “entrega de resultados” redigida dessa forma: “Entregar resultados sistematicamente, sempre que possível. Contribuindo para o trabalho dos outros e para o resultado da empresa”. Agora eu pergunto: isso funciona!? Ficou claro para alguém o que é entrega de resultados para essa empresa? Você é capaz de treinar alguém em “entrega de resultados” com uma descrição dessas? Você é capaz de imaginar uma avaliação de desempenho baseado nessa “entrega de resultados”? Provavelmente o responsável por essa descrição queria adequar o que leu em uma reportagem à empresa em que trabalhava… e olha só o que aconteceu.
Para finalizar:
Esses termos realmente estão desgastados e já passou da hora dos funcionários começarem a perceber que é necessário mudar a forma de interpretá-los. Agora, antes de abrirmos uma Você S/A e simplesmente aceitarmos que a última moda em gestão de pessoas é trabalhar de casa, é preciso no mínimo entender para que tipo de empresa isso se aplica e para que tipo de função isso se aplica. Senão jajá nós teremos que buscar o atendente do Mc Donnald’s em casa pra fazer nosso Bic Mac.
Resposta da Rach: Gente, nem sou só eu que estou dizendo… O CARA É PROFISSIONAL EM RH E TAMBÉM RECLAMA DISSO!!
Enfim, liiindja resposta, Du.
Março 25, 2008 at 12:12 pm
Com licença, Rachel:
Caro, Edu
Também sou estudante de Gestão de RH e às vezes me pergunto se não estou me tornando adepta de uma espécie de seita, dado o grau de abstração de tais conceitos, mas que todos, digo, todos, parecem acreditar piamente!
Gostaria de enviar seu comentário, assim como trechos do post da Rachel para a lista de que participo. Posso? Acho que seria interessante provocar algumas críticas. Para isso, poderiam me enviar seus nomes completos e/ou funções para melhor identificação da fonte (caso queiram, é claro)?
Obrigada pela pílula de leitura matinal. :-)
Resposta da Rach: Prezada amiga, enviarei as informações solicitadas através de seu e-mail. Qualquer dúvida, favor entrar em contato. Atenciosamente, Fulana de Tal.
Março 25, 2008 at 12:46 pm
Eu ia comentar, mas fiquei lendo o texto que o cara comentou e não sei porque pensei em radicais islâmicos. Com barba e tudo. E um turbante meio sujo feito com uma toalha.
Resposta da Rach: Por acaso esse radical islâmico tava montando um camelo?
Março 25, 2008 at 1:29 pm
Amiga que usa óculos, eu não aconselho a usar esse texto escrito em sua lista de discussão, até porque escrevi a resposta rapidamente e agora notei várias gafes que cometi. Mas, como eu gostei do tema, tão logo tenha tempo, vou re-redigir o texto e deixá-lo mais claro. Peço que deixe-me seu email para enviá-lo assim que tiver concluído.
Março 25, 2008 at 4:38 pm
Rach,
Isso é que vc não trampa em umas dessas multis americanóides.
Por que dai vira will to win (minha predileta), personal accountability, builds and leverages relationships, raising the bar. Fora o vamos focar nos low hanging fruits. Tem também o isso é fora do escopo da reunião, mas vamos colocar no Parking lot. Essa é a pior de todas.
Março 25, 2008 at 5:15 pm
É um tal de gestão pra cá, proatividade pra lá. Utilizaram um monte de expressões em inglês para palavras que já existiam em português (proatividade não é o mesmo que iniciativa? coaching não seria “orientação”? e por aí vai) para uma pretensa homogeneização dos conceitos, que nunca ocorre.
E o pior é que isso pegou onde não tem nada a ver: em medicina. Na falta do que fazer, colocaram gestores na área médica e agora nós somos obrigados a ouvir estes termos rotineiramente, subornando todos com programas de participação em lucros (PLR).
O anônimo covarde é por que não quero ser identificado por algum proativo da minha empresa.
Março 25, 2008 at 5:47 pm
Oi Rachel,
acrescentaria à grande lista de termos ridículos do mundo corporativo o infame “empoderamento”, uma tradução deformada e babenta de empowerment. Inclusive já li em textos escritos. O qual já rendeu um bom trocadilho por aqui, com direito a uma longa discussão se o empowerment no contexto sexual poderia ser traduzido como empaudrentamento.
No mais também frequento o asilo de loucos que são os comentário do site do PD. Ainda que ache ótimo o texto dele, e de vez em quando existam até comentaristas que se salvam do flaxflu ideológico.
Março 25, 2008 at 10:28 pm
:)
Good read! Thank you!
Março 26, 2008 at 11:48 am
hahahahaha te vi no Ronald e vim ler… e eu to desempregada e talz e participo de umas listas de ofertas de vagas e sempre tem isso… ontem mesmo eu tava pensando “puta meu, que saco esse negocio de proatividade”… provavelmente é da mesma classe de gente que instituiu o gerúndio como língua oficial dos atendentes.
Março 26, 2008 at 5:57 pm
[...] Eu gosto de uma coisa errada Conversa fiada, besteiras e muita coisa errada « Prezado fulano, segue arquivo anexo conforme solicitação via contel [...]
Março 27, 2008 at 2:57 pm
Nossa o corporatives é super criativo. Tenho ouvido muito o tal do forwardei (encaminhei). Que preguiça…