No olho da rua: minha vida como desempregada, parte 1

No dia 17 de março pedi demissão ao meu chefe. Trabalhava – trabalho, já que meus 30 dias de aviso prévio não se terminaram, explico já – havia 2 anos na mesma empresa, na mesmo cargo, ganhando para isso o mesmo salário. Entretanto, como vocês podem adivinhar, exercendo muito mais funções do que aquelas que normalmente caberiam a alguém com o meu nível hierárquico. Além disso, eu camelava em regime quase escravocrata para um gerente que aparecia para trabalhar às 11 da manhã, tirava três horas de almoço e ficava o resto do tempo assistindo a videos do Terra. Veja bem: vi-de-os do Ter-ra. Que raio de vadiagem malemolente é essa?

Coloquei a situação na balança: eu suportaria continuar trabalhando numa atividade que não me satisfaz, mas ganhando um pouco mais para isso? Se sim, compensaria continuar na mesma empresa? E o mais importante: quanto vale minha sanidade mental? Porque ao pedir um aumento para seguir sob a sombra do mesmo louco psicopata preguiçoso que vem a ser meu chefe, eu estava atribuindo um valor à minha saúde. Trabalhando com o João (vamos chamá-lo assim), estava me aproximando daquela linha que divide as pessoas que distiguem o certo do errado dos malucos que matam a machadadas, cozinham o corpo e comem os pedacinhos. Com catchup Heinz. A parte gastrônomica do processo nunca me interessou, mas eu já andava pesquisando preços de machados e serras elétricas. Podia vislumbrar as manchetes: ‘Jason feminina ataca no interior de SP’ ou ‘Retalhou o chefe e foi ao cinema’.

Quando você chega à conclusão que só por muito, mas muito dinheiro consideraria continuar trabalhando, é porque o momento de sair fora chegou. É lógico que houve um estopim: eu já estava num ritmo de trabalho insano havia duas semanas e o imbecil testou minha paciência por três vezes seguidas numa sexta-feira. Na segunda-feira de manhã pedi demissão. E senti um alívio, uma alegria, uma libertação tão grandes que mesmo que me fodesse terrivelmente nas próximas semanas estava 100% segura de que tinha tomado a melhor atitude.

Isso foi em 17 de março, quase um mês atrás. Desde então estou procurando outro emprego com aquela obsessão dos que vêem a rua da amargura se aproximando cada vez mais rapidamente. Como a anta do João se tornou absolutamente dependente de mim e nada naquela porra de departamento anda se eu não estiver presente, ele me pediu para ficar até 31 de abril, para que haja tempo para contratar e treinar uma substituta (opa! Música das piriguetes?). Aceitei porque, afinal de contas, eu estou desempregada. O problema é ter que trabalhar para uma pessoa que recém descobriu que você a detesta. As coisas não andam fáceis, vou relatar algumas das merdas nos próximos dias. Se algum leitor ae estiver contratando e quiser meu currículo, me avise por e-mail :D Sabe o motoboy lifestyle? Correria, mano, tamo na correria.

Eu tinha pensado em começar um novo blog falando do minha primeira e incipiente experiência como desempregada, mas espero que não dure tanto tempo a ponto de render arquivo. Acho melhor fazer só uma série especial por aqui mesmo, e torcer para que não tenha muitos capítulos.

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15 Comments on “No olho da rua: minha vida como desempregada, parte 1”

  1. Fernando Says:

    Eu há não muito tempo, troquei um ritmo insano num trabalho que me pagava muito bem, e me rendia umas estadias em bons hotéis, numas viagenzinhas muito legais, apesar de que todas domésticas. Mas eu simplesmente odiava o que eu fazia, me sentia um merda fazendo aquilo, que estava totalmente abaixo da minha capacidade intelectual.

    Enfim, troquei o ritmo insano de trabalho, por um ritmo mais insano ainda, mas numa área que eu gosto, estudo, aproveito, me aprofundo.

    Troquei minhas viagenzinhas domésticas em bons hotéis por correrias bate e volta Curitiba-Floripa, sem nem direito a ir até Santo Antonio de Lisboa ou Sambaqui, na ilha, pra me entupir de camarão pistola.

    Enfim, hoje ganho menos, trabalho mais, mas não tenho vergonha de admitir isso, porque tenho futuro no que eu faço. Simplesmente porque eu gosto de ser advogado, e isso me satisfaz.

    Por fim… se você tava se sentido mal, fez o certo de pedir pra sair. É clichê, mas fecha-se uma porta e abrem-se várias outras pra quem se mostra interessado.

    Não te conheço, mas boto maior fé em você, e tenho certeza que você vai se dar bem com essa sua escolha.

  2. srta. rosa Says:

    Isso aí, garota! A gente não tem que aceitar a infelicidade como estado natural das coisas. E mete os peitos que tudo vai dar certo. A torcida é grande.

    Bezzos,

  3. raquel Says:

    eu entendo muito bem o que é pedir demissão de um emprego que não parece ser emprego mas tortura em ditadura militar.

    pode parecer ridículo mas eu acredito que as coisas acontecem (mas dependem da gente de alguma maneira). então, tem horas na vida que precisamos sacudir a bunda gorda e tomar atitudes que aparentemente vão te prejudicar mas que no fundo só permitem outras coisas acontecerem!

    ps: vc fez meu dia com a musica da piriguete! nunca tinha ouvido! que coisa tosca e engraçada! beijo!

  4. Proftel Says:

    Já tive chefe assim, mandei catar coquinho.
    Hoje no funcionalismo público, além de mandar catar coquinho ainda sacaneio o kra.
    Não pode mandar embora, intão….
    KKKKK rsrsrsrsrsr

    :-))))

  5. Alê Says:

    Nesse emprego que estou ainda não cheguei nesse nível, mas antes de quebrar o dedo e ficar 15 dias de licença eu tava quase surtando…
    Nesse meio tempo, contrataram mais 2 advogados e espero que a quantidade de serviço insano tenha diminuído e/ou, ao menos, amenizado.

    Enfim, tenho certeza que muito em breve vc estará num novo emprego e super feliz!

    Bjs e boa sorte

  6. Felipe Says:

    Disponível para oferecer só tenho desejos de boa sorte, emprego mesmo que é bom vou ficar devendo.
    Abraço e boa sorte


  7. Aqui mais um que se junta à turma que torce por você. Que pinte logo um trabalho que valha a pena, desde que não apenas financeiramente.
    Beijão!


  8. Torço pra vc arrumar logo um emprego q te valorize, Rachel. Ficar num lugar em q vc se mata e só toma patada não dá. (Experiência própria…)

  9. Azul Says:

    Na verdade não tem dinheiro que pague um trabalho e/ou ambiente ruim por muito tempo. Geralmente quem faz isso está penhorando a alma para o diabo. Vende a alma para o monstro pagão do trabalho e depois de um tempo compra ela de volta e vai viver a vida.

    Pessoalmente acho que o melhor modo de procurar emprego é ainda empregado. Mas admiro a coragem e desejo boa sorte para vc.

    Resposta da Rach: Sabe aquele ditado imbecil ’só se aprende a nadar qdo a água bate na bunda’? Pois então, eu tô com água na cintura e tô me virando bem. Só espero que ela não chegue no pescoço…

  10. Junior Says:

    Rachel, eu estou entrando numa situação parecidíssima com a sua: quero mesmo pedir as contas daqui e, olha que, no meu caso, a situação é bem crítica pois estou num local onde muita gente gostaria de estar: serviço público. As pessoas são boas mas o trabalho está insuportável e estagnante. Depois de 10 anos “amarrado” aqui, quero viver e correr atrás de trabalhar com o que gosto. É meio que abrir mão “do certo pelo duvidoso”, mas não dá mais para ficar fingindo que tudo está bem. Como o rapaz do primeiro post quero trocar muito trabalho chato (mesmo que tenha vários benefícios) por muito trabalho (muito, muito mesmo) que acrescente algo à mim e que me faça sentir o significado de “realização profissional”. Quero voltar a sonhar com “o que eu vou ser quando crescer” agora que já atingi os 1,85 de altura (e quase 31 anos de vida). Torço para que você arrume um emprego logo (Emprego MESMO e não TRABALHO) e sinta bem consigo.

    Abração do estrupício de Brasília!

    Resposta da Rach: Obrigada, Junior! Desejo o mesmo a vc ;)

  11. Azul Says:

    Ah Junior, se está no serviço público então praticaste do esporte preferido do candango, que é estudar para concurso?

    Impressionante como em algum momento parece que todo mundo em Brasília vai estudar para algum e participar da famigerada seita dos concurseiros.

    Já eu sou terceirizado, o que me coloca na parte de baixo do sistemas de castas da administração pública. Junto com os vigias e as faxineiras, que afinal também são terceirizados.

  12. Junior Says:

    Oi Azul, Estou tentando responder a você em seu Blog mas o terra não está ajudando muito! Então vou mandar a resposta por aqui mesmo… Para ser bem honesto com vc, nunca fui muito de ser concurseiro (o que me torna diferente da esmagadora maioria brasiliense). hehehe A cidade empurra as pessoas para esse caminho e o meu vai numa direção beeeeem oposta… Tanto que minha área de afinidade não tem absolutamente nada a ver com política ou serviço público.

    Nunca quis ser funcionário público, a coisa apenas foi acontecendo. Foram decisões que, na época, foram as mais acertadas mas que hoje não condizem com minha realidade nem com meu “modus operandis”. Resumindo: estou louco pra sair desta vida “pública” e me dedicar ao que sempre quis – 3D (animação e modelagem).

    Eu nunca passei pela experiência de ser terceirizado, e confesso que nunca tinha enxergado a situação ‘de castas’ da forma que você colocou. Apesar de soar cômico é uma verdade dolorosa… Também já estive num nível mais baixo já que entrei aqui com concurso “nível médio” e, atualmente, estou como “nível superior”.


  13. [...] Eu sei que tô na pilha com esse negócio de emprego novo, emprego velho, mandar o chefe pastar e et…Mas é verdade: acho que todo mundo uma vez na vida tem que pedir demissão e jogar tudo para o alto. Seja para mudar totalmente de carreira, seja para se arrepender depois, seja pelo motivo que for. Você tem que se dar esse alívio, essa sensação inigualável de se sentir dono do próprio ass. [...]


  14. [...] No olho da rua: minha vida como desempregada, parte 2 Perdeu a primeira parte? Aqui está. [...]


  15. [...] como desempregada, parte 3 Continuando minha saga sobre empregos e afins, esta é a parte 3. A primeira parte está aqui e a segunda está [...]


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