A Lógica do Primário

Quando eu estava no primário havia uma divisão velada entre meninos e meninas. Não era algo como água e óleo, que simplesmente não se misturam. Nós até sentávamos perto durante as aulas e conversávamos com eles no recreio, mas havia uma inegável tensão nas relações entre homens e mulheres de sete a onze anos. Posso nomear com facilidade ao menos 10 garotos que me atormentaram cruelmente durante esse período. Eles tinham uma carteira variada de ações desenvolvidas para nos fazer passar vexame ou irritação. Lembro especialmente de um infeliz que a cada frase que eu dizia ele imitava com a boca um barulho de peido. Não preciso comentar que eu corava até as orelhas de raiva e vergonha.

Esse tipo de bullying era generalizado: todas as minhas amigas passavam por situações semelhantes, de modo que compartilhávamos agressão e agressores. Era como se todos os garotos da terceira série se dividissem em células operacionais e fixassem alvos entre nós, meninas. E dá-lhe barulho de peido, puxão de cabelo, apelidos horrorosos e nojeiras mil. Aliás, no quesito nojeiras eles eram campeões: desde cuspir nos nossos tênis até voltar do banheiro e esfregar as mãos na nossa cara, em todas as ações cotidianas eles encontravam uma brecha para fazer coisas nojentas que nos deixavam atordoadas.

E veja, ao menos na minha turma as meninas não eram nada delicadas. Algumas sentavam cascudos e saíam no braço com eles mesmo sabendo que corriam o risco de uma surra bem dada – eu, por exemplo, fiz isso mais de uma vez. E mais de uma vez levei uns bons tabefes de garotos que nunca tinham ouvido falar na tal covardia de se bater em mulher. Porém, acreditem: era impossível se defender deles. Fosse ignorando, fosse partindo pra porrada, o escore finalmente era sempre um chocolate, fora o baile.

Certa vez, entretanto, notei uma discrepância em todo esse ódio. Tinha uns onze anos e formou-se um casal de namorados na turma. Para surpresa geral, estavam juntos justamente o menino que mais humilhava uma das garotas certinhas da sala. Ele era particularmente cruel e fiquei chocada que estivessem namorando. Porque, afinal de contas, eles não se detestavam? E nessa mesma época adotei uma das minhas primeiras teorias e que me acompanha até hoje: a Lógica do Primário. Esse nome não é invenção minha, mas achei perfeito.

Percebi que o cara que mais persegue a moça e que a despreza abertamente pode ser, muito provavelmente, louco por ela. E talvez por não ser correspondido ou por não aceitar ele próprio o sentimento, disfarce fingindo detestá-la. O moleque que vivia puxando meu cabelo na sexta série me confessou, depois de 10 anos, que era apaixonado por mim e não sabia como demonstrar. Por isso puxava meu cabelo.

Na faculdade, uma garota da minha sala tirava onda das perguntas e comentários de um colega de classe. Numa festa, ela bebeu demais, caiu no choro e admitiu para quem quisesse ouvir que na verdade adorava o Diogo mas achava que não tinha chances com ele. Era a Teoria do Primário aplicada na vida adulta. Tive várias outras comprovações de que ela realmente é aplicável.

É lógico que isso não dá sempre certo. Muitas vezes as pessoas se detestam MESMO, não é artimanha. Mas sempre que um cara pega muito no meu pé, não posso deixar de pensar que, no fundo, talvez ele seja doido por mim.

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13 Comments on “A Lógica do Primário”

  1. Renan Says:

    Primeira vez que parei pra pensar nisso…
    E você tem toda razão! Isso sempre rola, mesmo com adultos. A paixão disfarçada de ódio…
    Acabei de descobrir aonde nasce esse comportamento!
    Momento psicóloga no blog…hehe
    Valew!

  2. Pescaldo Says:

    O cinema tá cheio de casais que se odeiam e vivem se maltratando e, durante todo o filme, surge tensões sexuais entre os dois. No final, inevitavelmente, eles ficam juntos.

    Um exemplinho disso é o Sawyer e a Kate do LOST. Não é cinema, mas vale.

    Ou o Sawyer e o Jack AUHEAUHEUHAEUA

  3. Ms. Granger Says:

    Pois é querida, tem toda a razão! Isso é inegavelmente um fato mto corriqueiro… eu pelo menos já me peguei fazendo isso umas tantas vezes: desenvolvia uma relação de “pegação no pé” com um colega e acabava apaixonada por ele… aliás, é exatamente isso que estou vivendo agora! heheheehehe
    Acabei de dar uma de louca e beijar o moço no sábado passado….

  4. Nary Says:

    uhahuauha
    adorei o nome da teoria. Quando eu era criança tinha arranca rabo com os garotos da rua que eu morava. Era um ódio enorme deles =P
    Nunca descobri se algum deles era afim de mim.

    muito muito bom o blog.
    eu passo aqui sempre e nunca comento, passarei a fazer isso agora
    =)

    Resposta da Rach: Opa, seja bem-vinda ;)

  5. Lolla Moon Says:

    “Percebi que o cara que mais persegue a moça e que a despreza abertamente pode ser, muito provavelmente, louco por ela. ”

    essa teoria vem sendo confirmada através dos anos. eu também já passei por isso. passei a infância/adolescência sendo incansavelmente humilhada por alguém que, no fim das contas, puxava um bonde pela minha pessoa. geralmente essa estratégia é masculina; mulheres como a sua amiga são exceção, já que nós tendemos a grudar nos alvos da nossa afeição – o que geralmente tem efeito contrário.

    acho melhor a gente começar a puxar o cabelo dos meninos, também. ;)

    Resposta da Rach: Putz, ótima idéia. Mas acho que vou apelar e ao invés de puxar cabelo vou mesmo é derrubar ‘na baiana’ ;)

  6. *Lusinha* Says:

    É um pouco daquele velho ditado “quem desdenha quer comprar”.
    Mas como os seus amiguinhos de primário foram maldosos com você, héin? Eu tinha minhas richas com os garotos, mas não chegaram a esse ponto.
    Bjitos!


  7. Com certeza….sempre achei isso mesmo, na verdade sempre achei porque eu sempre fazia isso com os menininhos e até na adolescência. Eu achava que pertubar meus paqueras seria a melhor forma de ter atenção. Muito bom esse texto!

  8. Monsores Says:

    Ei, eu pego muito no seu pé?

    Queria conversar contigo. To indo pra Sampa hoje, mas já volto amanhã de tarde :/

    Beijos aí. Se cuida.

  9. Roberto 3 Says:

    é… pode ser…

  10. Lari Says:

    Garotos de primário são malvados… Na minha época as meninas já se defendiam bem ou os garotinhos bebiam a água de campinas… . Eu era a rainha de deixar minha linda mãozinha marcada nas costas deles!
    Garotos de Ginásio são idiotas.
    Não tão agressivos mas nojetos e babacas… é a mistura de um comportamento ”primata” com a testosterona
    Garotos de Colegial são burros.
    Não passaram de nenhuma fase e se acham machões e donos do mundo…
    Não dão valor a nada, são babacas…
    Enfim, posso ficar aqui enumerando todas as faixas etérias e a conclusão vai ser a mesma: Eles não conseguem se livrar de certos comportamentos

    Então, essa sua teoria perdura por tooooda a vida.
    é sempre assim : Quando o cidadão implica demias com uma pessoa está, inegavelmente, tentando chamar a atenção da mesma.

    Resposta da Rach: Pois é, Lari, o lance todo é assim mesmo. Concordo contigo.
    Mas ainda não tô disposta a virar lésbica, não. Continuo preferindo os estúpidos dos moleques, msm ;)

  11. srta. rosa Says:

    Fantástico o texto!!! Adorei o nome também, vou replicar com a fonte, se não é seu o nome é de quem? Porquê é muito genial isso e me deu vontade de sair espalhando pra todo o mundo (rs).

    Ah, tem mais meme pra você lá. Veja se quer, e enjoy it, se for o causo.

    Bezzos, querida!

  12. SK Says:

    Ohhh….. como menino posso dizer: é fato.


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