No olho da rua: minha vida como desempregada, parte 3

Continuando minha saga sobre empregos e afins, esta é a parte 3. A primeira parte está aqui e a segunda está ali.

Em março de 2006 comecei, então, a trabalhar como assistente de vendas para o exterior, que é tipo uma secretária bilíngüe menos imbecil e mais funcional – que me desculpem as secretárias bilígües, mas é verdade. Acreditem: não havia nada de difícil ou desafiador no meu trabalho, era tudo questão de treino. Aprendi rapidão as partes burocráticas e repetitivas das funções e logo estava agindo com aquela naturalidade dos que estão no mesmo cargo há anos. Eu, inclusive, fazia as mesmas caras de tédio e assumia o mesmo tom de voz modorrento dos enfadados pelo trabalho.

Sendo bastante sincera, meu trabalho era chato porque não demandava nenhum tipo de habilidade especial, requeria apenas organização, atenção e domínio dos idiomas. Aquelas que eu tinha acreditado por toda a vida serem minhas maiores qualidades eram desperdiçadas ali. O desafio diário consistia, na verdade, em aturar meu chefe.

*Atenção para uma descrição nada elogiosa*

Pense numa pessoa muito, mas muito ansiosa. Alguém que não consegue se manter sentada na cadeira e que ordena que tudo seja resolvido instantaneamente, numa tentativa de aplacar essa ansiedade. Essa pessoa é, ainda, extremamente repetitiva e consegue fazer a mesma pergunta e a mesma solicitação várias vezes ao dia, enlouquecendo o interlocutor. Pensou? Ladies and gentlemen, may I present you João, my boss.

Essas, entretanto, não eram suas únicas características absurdamente irritantes: para piorar, meu chefe, o GERENTE DE EXPORTAÇÃO, falava um inglês macarrônico BIZARRO e passava vergonha quando tinha que tentar o espanhol. Quer dizer, EU passava vergonha, porque em toda sua arrogância, João achava seu espanhol ‘muito bom’ e só me delegou a função de enviar TODOS os e-mails do departamento porque eu ‘digitava mais rápido’ ¬¬

Apesar de todas essas reclamações, meu chefe tinha algumas qualidades, também. Só que isso aqui é uma narrativa de alguém que está muito feliz de ter largado o emprego e que ainda tem sérias reclamações do chefe, então vou suprimir a parte de falar sobre as qualidades, ok? Se alguém quiser uma defesa do João que vá conversar com a mãe dele.

Além disso, como vocês devem adivinhar, minhas funções tinham aumentado bastante nesses dois anos, não só em quantidade como também no grau das reponsabilidades que tinha assumido. Quando dei por mim, estava elaborando gráficos mega complexos sobre análises de vendas e metas comerciais e cheguei ao absurdo, certa vez, de ter que redigir um contrato de distribuição. Oi? Isso é trabalho para advogados formados? Comecei a desempenhar uma série de atribuições que tinha certeza serem de responsabilidade do gerente, sem para isso ter qualquer bonificação ou aumento.

Apesar de ouvir constantes elogios e coisas do tipo ‘você se tornou indispensável para o departamento’, o valor que aparecia no holorite era exatamente o mesmo desde a contratação. Acredito que a gente se contenta com elogios e tapinhas nas costas apenas enquanto criança. Quando as contas do mês começam a depender do salário que você ganha, só congratulações não são suficientes. Resumindo, eu queria um aumento. Um belo aumento, diga-se de passagem. Se meu trabalho era assim tão formidável, queria receber o quanto achava ser justo por ele, e se aquela empresa não quisesse pagar, estava disposta a procurar por outra. A bomba estava armada e prestes a explodir.

O BUM! veio em março. Estava insatisfeita havia 12 meses exatos e passando pelas três piores semanas de que me lembrava. Trabalhava feito uma camela até as onze da noite, quase não tinha folga para almoçar e a montanha de coisas para fazer não parecia diminuir, só aumentar. E enquanto isso, o João ficava dias sem aparecer e, quando estava no escritório, ficava pelos corredores batendo papo ou passava horas assistindo a videos do Terra. Preciso repetir? Vi-de-os do Ter-ra. Pensamentos assassinos truculentos vagavam pelo meu cérebro naqueles dias.

Ao final da terceira semana estava no meu limite. Queria apenas que a sexta-feira terminasse logo para descansar e ficar livre dele por dois dias. Mas o cara conseguiu a proeza de me enfurecer mortalmente antes do dia acabar e assim decidi pedir demissão já na segunda-feira e me libertar daquilo de uma vez, nem que para isso tivesse que voltar a deixar meus currículos em escolinhas infantis.

E foi exatamente o que fiz.

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12 Comments on “No olho da rua: minha vida como desempregada, parte 3”

  1. Ms. Granger Says:

    Parabéns coleeega! Um ato de coragem… pelo menos vc é uma desempregada e não uma assassina (afinal, logo vc ia se pegar enfiando uma faca – ou metendo um machado – nas costas do João!). Ia ficar mega famosa e se bobear, nem ia ficar mto tempo presa, afinal tá na moda vc matar alguém e dizer q não foi vc, apesar de terem achado sangue da vítima na sua na sua roupa…
    Eita mundo bizarro.

  2. Roberto 3 Says:

    eu estou na mesma situação… mas tenho que suportar até o final do ano para receber minha carta de auforria


  3. Humpf. Só queria saber o que o cara fez de tão ruim que conseguiu ser pior que o resto que já tinha feito. Deve ter sido algo mortalmente ruim. Abraços

  4. Nigro Says:

    Cara… que saga. Chefe é tudo ansioso ou é apenas impressão minha?!

    Em tempo: Com você de professora quem precisa da mala da Professora Helena!? Aposto que até o Cirilo deixaria a Maria Joaquina sobrando pra prestar atenção na aula, com certeza! xD


  5. Entendo totalmente, e apóio sua decisão. Comigo aconteceu algo parecido, mas só chutei o balde (leia-se “pedi demissão”) quando já tinha outro emprego garantido, he-he

  6. Edu Says:

    Diz-se assim no mundo dos negócios: não se pede aumento, se pede as contas.

    Resposta da Rach: isso é uma merda, velho.

    Eu ia fazer uma enorme discussão aqui tentando provar porque isso é uma merda, mas enchi o saco até da discussão.
    Foda-se.

  7. Fernando Says:

    poha até eu tô ficando com raiva do joão. que belo filho da puta.

    Resposta da Rach: isso… todo mundo destilando ódio coletivo contra o João… ;)

  8. pedro favaro Says:

    Videos do Terra?!
    Isso fala muito sdo João…
    verme…

  9. Pescaldo Says:

    Por isso virei professor.

  10. nic Says:

    é video do terra não é p qq um, tem que ser muito à toa…
    e ele era feio? eu tive um chefe feio.Eu tinha q aguentar a cara feia dele e o perfume grudento,aff o telefone ficava ” empestiado ” do perfume dele.

    mais sorte no seu prox. emprego!

  11. Camila Says:

    Ah! Estou adicionando aos links!

  12. Camila Says:

    Realmente não há como se sentir bem com algo que nos atormenta, mesmo quando precisamos muito de um emprego, é importante, mas não existe emprego bom o suficiente do que aquele que nos agrade, que nos anime de levantar da cama e ir. O nosso bem estar é muito importante, nossa mente.

    (o comentario acima, era para ter saido aqui)


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