Meus dias de criança na praia

Como uma garota que morou a vida toda no interior de São Paulo, em cidades geralmente beeem distantes do litoral, passar uns dias na praia era mais que a melhor parte das férias: era O Evento. Não só a distância impossibilitava que fôssemos como paulistanos ou essa gente que habita cidades próximas da praia, que em qualquer feriadinho vagabundo adoram esfregar na nossa cara de caipira que ‘vão descer pra Ubatuba’, mas toda a cultura familiar e os preparativos para a viagem fizeram com que essas aventuras se tornassem os trechos mais luminosos e sorridentes do filme das minhas memórias. 

Tudo começava bem antes do passeio em si. Meus pais – logicamente depois de discutir tudo entre eles – nos comunicavam alegremente que dali duas ou três semanas iríamos para a praia. Começava, então, uma época de semi-enlouquecimento da minha mãe, coitada, que tinha que providenciar uma mudança e não apenas roupas para uma família: remédios de todos os tipos, desde simplesinhos para alergias e enjôo até coisas ainda não aprovadas pelo FDA americano contra málaria, peste bubônica e gripe aviária; protetor solar suficiente para um batalhão acampar seis meses em Mercúrio; esteiras, cadeiras, guarda-sóis, biquínis, cangas, bonés, chinelos e mais uma tralha infindável que só eram realmente usados nesse muito esperado Evento.

Fícavamos ligados na previsão do tempo e desenhávamos sóis sorridentes com giz no chão do quintal, numa tentativa ritualística de espantar as chuvas e atrair o tempo bom. Acho que funcionou, porque não importa o destino ou a época do ano sempre pegávamos no máximo um ou dois dias de chuva.

Para aumentar a singularidade dessas excursões, a viagem era sempre MUITO longa. Veja que para uma criança de oito anos que vai à praia uma vez por ano e ama essa única oportunidade esperar num carro tedioso por míseros 30 minutos já seria mortalmente aborrecido. Mas era bem pior que qualquer meia horinha.

As cidades nas quais morei durante a infância e adolescência ficam a quase 700 km de qualquer praia. Isso significa uma trajeto de no mínimo 8 horas. E com petizes no carro, você tem que obrigatoriamente fazer várias paradas para xixis, descansos e snacks. Geralmente levávamos um dia completo até vermos o mar e outro na volta até avistarmos o portão de casa. Meus pais bem que tentavam minimizar a chatice e podíamos levar vários brinquedos e gibis e livrinhos, mas era impossível ficarmos totalmente distraídas.

Desse trajeto rodoviário a parte mais deliciosa era passar São Paulo e perceber que começava a serra; a partir desse ponto só faltavam duas horas! E então chegar na cidade, achar o hotel, correr com as coisas para o quarto e sair em louca disparada até a praia. Até comprovar que sim, o mar continuava ali, como estava da última vez.

Eu tinha – e tenho até hoje – uma estranha ligação física com o mar. Gelado, morno, azul, sujinho, com ondas ou no estilo piscinão, não me importava nada, apenas ficar imersa naquele monte de água. Batia recordes sucessivos de permanência ininterrupta em água salgada, eternamente acompanhada das minhas saudosas pranchas de isopor que em TODA SANTA VEZ meus abençoados pais compravam para mim. Pegava ondas e tomava altos caldos que me deixavam chorosa e de bico, mas sempre voltava a ele. Chegava a ficar com a barriga ralada do contato com a prancha =D

Já a minha irmã pequena preferia os brinquedinhos e a areia. Aliás, ela detestava ter de entrar na água e só ia até certo ponto, bastante aquém do limite que minha coragem mandava ir.

Essa é outra saudade nas minhas lembranças de praia. Minha mãe e meu pai ficavam na areia, debaixo do guarda-sol, me observando no mar. Conforme eu avançava demais em direção ao perigoso fundo, eles me chamavam de volta com escandalosos acenos de braços e mãos. O melhor momento era quando meu pai resolvia entrar um pouco também e com a segurança das mãos deles eu podia ir além do que me era permitido quando sozinha.

Lembro que enquanto éramos realmente pequenas sempre havia uma grande caixa de isopor com Toddynhos, Chambinhos, suquinhos de caixinha e lanchinhos para todo o dia. Farofa, eu sei, mas come on! Eram anos 80 e nós éramos pequenas! Essa história de sanduíches naturais, saladas de frutas e gente de luva cirúrgica fazendo os quitutes de praia é coisa muito recente. Na minha época, comida de quiosque e vendedor ambulante era garantia de dias no banheiro com diarréia crônica ou hepatite A – beem mais grave.

Outra preocupação familiar que não tinha muito a ver com a época era o tal do protetor solar. Minha mãe nos besuntava antes de sairmos do quarto e depois ao longo do dia, várias e várias vezes. Isso era bastante incomum; o que mais se via eram crianças ardidas ou sofrendo com insolação. Esse lance de se preocupar com câncer de pele também é moda bastante atual.

E no fim, depois de dias de felicidade incomparável ter de voltar para casa era mais ou menos como um castigo. Subir a serra e ver carros descendo em direção ao paraíso me despertavam sentimentos verdadeiros de inveja.

Mas aí lembrava que dali um tempo estaria de volta. E que o mar continuaria ali, quase como se me esperasse, exatamente como nas outras vezes.

 

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12 Comments on “Meus dias de criança na praia”

  1. leo Says:

    Apesar do cenario nao ser exatamante o mesmo tive um flashback fantastico…sao as minhas ferias ;)))


  2. Nossa, compartilho várias coisas com você. Primeiro que ir pra praia era um ritual, igualzinho. Pra mim a viagem era de 4-5h, mas era uma eternidade. Vivia na água, acenos, melhor momento com o pai na água, cara, parece que fui eu quem escreveu o texto. Essa foi boa!

  3. Edu Says:

    Mto bom Rach! Sua capacidade de fazer me lembrar os bons tempos de Ubatuba está de parabéns.

  4. Nigro Says:

    Bom, eu moro no Rio e aqui só quem mora lá pelas bandas da Baixada é que tem essa coisa de ‘vamos a praia’ no sentido de turista mesmo. Ainda assim, não são nem 200km de distância, embora seja longe pra cacete. Acho que praia é uma parada muito democrática, mas confesso que não sou muito fã de crianças pulando na água e depois rolando na areia e salpicando todos ao redor de areia… o futebol, o frescobol, o vendedor de camarão e de outras traquinagens, as pessoas se bezuntando de clareador de pêlos…

    Definitavamente, eu não sou fã de praia! xD

  5. Camila Says:

    eu adorei a parte de desenhar o sol…mas, sabe que ate hoje eu faço isso

  6. Nigro Says:

    O que eu gostava quando ia para praias distantes eram andar de algumacoisaboat…rsrs Aquilo era bem divertido! =)

  7. mariah Says:

    tenho lembranças fantásticas dos nossos fins de semana na praia. moramos em são paulo, portanto nossa viagem era mais curta…porém, mesmo assim, interminável para 3 crianças dentro de um Corcel Marrom. Biscoitos polvilho, salgadinhos amarelos, pipoquinha Aninha, sucos em garrafinhas de Toperware. Travesseiros, edredons, pranchas de isopor, baldinhos e outras coisas dividiam o espaço (já reduzido conosco). A anciedade era tamanha, que as três meninas vestiam biquinis por baixo das roupas…e viajavam sendo “torturadas” por nós e cordões…mas era tudo lindo, tudo compensava. Os amigos (visinhos que tinham casa na mesma rua)…esperavam ou eram esperados…era uma festa.
    Que delícia de lembrança vc me trouxe.

  8. raquel Says:

    lembro muito das minhas viagens também! prancinha de isopor, BOTES, catar conchinha… muito bom!

    antigamente era coppertone mesmo, daqueles que deixavam a pele toda manchada… hoje em dia, os protetores infantis são coloridos, indicando pra mãe e pro pai onde a criança está protegida… muita evolução pro meu gosto!

    e o guarda-sol? quando batia um vento, era a parte colorida pra um lado e a haste pro outro, graças à qualidade da “casa e vídeo”! enfim… adoooooro!

  9. Bruno Says:

    Nessas horas vem a vantagem de morar em cidade de praia.

    Bastava o pai chegar mais cedo do trabalho durante horário de verão para curtirmos uma praia numa segunda, terça ou quarta feira qualquer…

  10. Fernando Says:

    e você e sua irmã não brigavam?

    bem no começo, quando ainda não tinha apê na praia, meu pai tinha que levar uma televisão de umas 20″, e colocava o trambolho entre eu e minha irmã, no banco de trás da belina da família.

    não tinha jeito, a gente vivia fechando o pau mesmo assim. e o coroa ficava de cara…

    mas era massa. com 6 ou 7 anos de idade já saia andando com minha super bicicletinha azul por praticamente toda balneário camboriú. um dia “descobri” uma rua super legal pra andar de bicicleta, longe pra caramba de casa.

    e aquele era o limite do mundo conhecido a que eu me permitia ir, com medo de nao saber voltar. anos mais tarde fui descobrir que o meu “limite” não é mais do que 2 quarteirões longe de onde era minha casa…

    época bem legal. muitas e muitas lembranças.

  11. pedro favaro Says:

    vc descrveu muito bem muitas e muitas férias minhas…
    algumas poucas diferencias mas a essência é a mesmo :-)

  12. Vinícius Schiavini Says:

    Lendo o texto até me senti culpado por morar perto da serra e já ter passado férias de ficar um mês INTEIRO lá… ou até DOIS.

    Mas adorei o clima de nostalgia saudável! =)


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