O elefante é fã de parmalat

Hoje eu vou contar uma história de amor; portanto, estrupícios toscos que não curtem essas coisas, vão ler o Eneaotil ou o Casa da Gabi, que são ainda mais sensacionais que o Coisa Errada.

Minha história de amor começa em 1987, quando minha mãe ficou grávida da minha irmã. A gente só soube que era uma irmã e não um irmão em 12 de setembro, quando nasceu aquele pacotinho. Mas me lembro de várias coisas quando ela ainda era um feto. Lembro, por exemplo, de ficar fazendo caretas para a barrigona, brincando de assustar o pobre bebê – eu não prestava desde a mais tenra infância. Lembro de acompanhar minha mãe durante a última sonografia, ver uma telinha tosca chuviscada igual tv fora do ar e da médica JURAR que aquilo ali era uma criança. Nunca que eu acreditei, né ¬¬

Meus pais montaram o berço que havia sido meu e se mandaram para o hospital na véspera do nascimento. Deixaram uma tia cuidando de mim e ela, muito boazinha, sem filhos e doida pra agradar a sobrinha de quatro anos, me deixou dormir no berço. Foi uma noite bem apertada, as pernas não cabiam direito naquele caixote. 

No dia seguinte, meus pais voltaram do hospital. Reconheci o barulho do carro quando dobraram a esquina e fui correndo, só de chupeta e calcinha, recepcioná-los no portão. Ao invés de uma irmã eles trouxeram uma trouxa de roupas e fraldas que berrava bastante. Para piorar, minha mãe tava meio que doente e não podia me pegar no colo. Todo mundo vinha visitar o pacote e ninguém mais me dava atenção.

De revolta, fugi de casa. 

Juro. Cheguei só até a esquina da praça, porque a babá assistiu à fuga e foi me recolher a tempo, antes que tentasse atravessar a rua. Eu queria me mudar para a casa da minha avó, onde as pessoas não esqueciam que havia outra criança na casa e não tinham olhos só para aquele bebê escroto. 

Mas graças a uma PUTA sorte genética, o bebê vermelho e mal humorado ficou bem bonitinho com alguns meses. Tão bonitinho que me conquistou: uma guriazinha de cabelo quase branco de tão claro, fininho, que virava uma maçaroca depois do sono. Bochechas gordinhas e rosadas de criança saudável, bracinhos roliços, sorrisinho torto e bangueludo, era praticamente um mamífero da Parmalat.

A partir de então nosso relacionamento oscilou bastante. Por um tempo eu consegui brincar com a pequena criatura; a diferença de idade de quatro anos e meio parecia não ter grande efeito sobre nós. Entretanto, na minha adolescência éramos quase estranhas. Tudo ficou bem difícil: discussões, agressões, indiferença e lágrimas, todos os quesitos necessários para rechear um bom folhetim dramático.

Saí de casa para ir fazer faculdade e ela ficou. Passei 5 anos falando – e brigando – com ela apenas pelo telefone até que em 2006 voltamos a morar juntas. Só nós duas. Ela, entrando no mundo universitário de descabeçamentos, doideiras e nonsense justificado; eu, fugindo da bolha que muitas vezes é o campus da USP. 

Apesar do começo MUITO complicado, nos tornamos amigas-irmãs. Ou irmãs-amigas. Daquelas que passam madrugadas rindo e conversando, que vãos juntas para as baladas, que trocam roupas e confidências e que dão graças pela sorte de terem uma à outra. Repartimos os maus bocados e compartilhamos muito mais que genes e sobrenome. 

Agora, há três meses sem vê-la e morando sozinha – novamente – em outra cidade, sinto uma falta imensa da minha irmã. Uma saudade fodida de saber que ela estaria em casa quando eu voltasse, que teria alguém para encher o saco pela louça suja na pia, as coisas jogadas na sala, o volume alto do som.

Parabéns, Sidis. Você levou 10 segundos para se tornar a pessoa mais importante da minha vida, apesar de eu levar 21 anos para lhe dizer isso.

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24 Comments on “O elefante é fã de parmalat”

  1. Hanrrikson Says:

    Porra, que bonito… Ter irmã mais nova é foda, quase covardia.


  2. Assim, meus olhos ficaram marejados. Tenho uma irmã mais nova e uma história similar. Saudade dela pequena – agora ela é uma mãe de família (e eu uma adolescente-adulta).

    Ok, não estou mais com olhos marejados, já estou chorando mesmo heh

    Parabéns pra sua irmã [=


  3. Ahhh que fofonho! Aposto que ela vai chorar horrores lendo isso.
    E, mais importante que tudo: você tem coração! (Tô chocada.)

    Bezzos,

  4. Jorge Says:

    Próxima vez que aparecer que vai contar uma história de amor, só vou ler o texto sozinho, e de preferência sem estar no trabalho! :P

  5. Nigro Says:

    Mas bah! Não é que você tem coração, guria!? xD

  6. Vitor Says:

    sabe que eu só fui perceber quanto meu irmão era legal quando ele foi pra Austrália, agora ele se transformou em letras (ja que eu só falo com ele por msn)

  7. Soraya Says:

    brigada sidis!

    e pra quem falo q eu ia chorar, eh q nao me conhece :D

    vc devia colocar as fotos nossas beibes.. nos tamos fofas e gordinhas ^^ AIUEauieAE

    muvc sidis

  8. Taynar Says:

    Ahhh, devo dizer que me identifiquei com o texto, pelo fato de meu irmão ter nascido com a mesma diferença que tiveram vcs duas.
    Fiquei com tanto ciume, que uma vez, tirei a chupeta dele, passei no sal e coloquei de volta na boca dele.
    Okz, hj eu tenho remorsos.
    Mas hoje tbm eu o amo como a coisa mais importante do mundo.
    Quem mais me chamaria de Naná?
    É o meu maior orgulho.
    Espero que ele já tenha me perdoado por ter malinado tnt com ele quando criança.
    Beijos, moça.

  9. Neomylla Says:

    Que lindo… Me fez lacrimejar… SNIF, SNIF…


  10. ai que lindo!
    saí correndo e fui dar um abraço no meu irmão mais novo.
    fiz maldadezinhas com ele também. Pra falar a verdade, fui tão cruel que ele se jogou do berço e quebrou a patinha aos onze meses. Mas, ele me devolve tudo com juros e correção monetária TODOS OS DIAS

    é uma praga, me enche o saco, me faz perder a paciência… mas, não há nenhum cara no mundo que me ame mais do que ele. e vice-versa
    ;)

  11. mari tait Says:

    É… o dia que a minha irã sair de casa eu tbm vou sentir falta dela.
    Não vejo a hora disso acontecer :D

    :*

  12. Eric Franco Says:

    Já é o segundo post consecutivo que você fala que tava de calcinha. Tá querendo atrair mais visitantes do Google?

  13. Renata Fern Says:

    Hahaha… pelo início do post não podia imaginar um final assim tão, mas tão sentimantal! É muito bom ter quem amar e poder dizer EU TE AMO com todas as letras! É um alívio, um bem-estar incomparável!!!

    :)


  14. Cara, irmão é um negócio foda…meu irmão mais velho tá morando em Londres, faz uma patcha falta.

    Quanto aos meus outros irmãos, a gente se xinga mas se adora. Lú, Fedido, amo vocês!

  15. mariah Says:

    quando a menor nasceu…eu e a do meio tínhamos respectivamente 8 e 6 anos. o pai, muito perspicaz nos levou para buscar o “pacotinho” na maternidade com o que, até aquele momento, era nossa mãe. não podíamos subir ao quarto…então o mais uma vez perspicaz pai deixou as duas crianças na portaria aos cuidados de alguém…bom, para duas crianças prestes a perder a atenção da mãe, os cinco minutos que a operação deve ter demorado…pareceram horas…tínhamos a certeza que tínhamos sido abandonadas premeditadamente na portaria daquele hospital e ele teria saído estrategicamente pelas portas do fundo.
    amei relembrar essa história…vou até postar lá na Casinha.

  16. Lígia Says:

    Que lindo, passei por história semelhante comminha irmã e irmão… ainda moro com minha irmã, e é difícil imaginar minha vida sem ela. Meu irmão se mudou pra outro canto do país há mais de ano, e faz agora 9 meses que não o vejo! Ainda bem que existe o danado do msn, mas ainda, sinto falta das nossas eternas baladas (sim, nós eramos companheiros de balada, e ainda somos quando dá…).

    Bjoks

  17. lízia Says:

    q linduuu…
    saudades da minha irmã tb…faz 2 anos q a gente mora em cidades diferentes….e mal nos vemos…

    as vezes a gente naum diz e nem demostra o qto elas são especiais pra gente…mas elas taum sempre ali….

  18. Ruy Says:

    Que bonitinho. E repito o comentário da Srta. Rosa (você tem coração! Unbelievable! (=).

  19. ÉRIKA Says:

    aaaaaaaaaawwwwwwwwwwnnnnnnnnn


  20. Ahhhhhhhhhhhhh cara, a sua revolta quando a irmã nasceu eu tive quando meu irmão nasceu, mas isso não evoluiu para uma bonita história de amizade como a sua…

    Post lindo! Aposto que ela chorou (se leu)

    Resposta da Rach: chorou nada, mano, ela é de pedra =D
    Ela comentou por aqui, dá uma procurada…

  21. welington Says:

    minha irmã me disse uma vez: “somos tão irmãos, que somo quase amigos”

    apesar de tudo, eles são legais neh

  22. Lecticia Says:

    Hahahaha minha irmã não conseguiria conviver comigo desse jeito… somos MUITO diferentes.
    Mas o post é lindo mesmo=)

  23. Fernanda Says:

    Os olhos da alma nos mostram as “outras” pessoas que habitam ao nosso redor.
    Beijos. Lê.

  24. Alice Says:

    Ae, lindo demais… pois eh, eu e meu irmaum quase naum falamos +… tivemos uma briga bem séria…porém, sempre sonho que voltamos a ser amigos…quem sabe, né?adorei sua estória…


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