Vende-se coração 83, pouco uso, único dono

Para ler ouvindo ‘Elephant Gun’, Beirut ;)

Eu não tenho lá grandes saudades da minha adolescência ou infância. Algum filme hollywoodiano nos incutiu a idéia falsa de que essa deve ser a melhor época da vida, mas eu dei graças quando fiz 18 anos. E novamente, quando fiz 21. E agora, com 25, sigo me sentindo cada vez mais aliviada daquela época ter passado.

Veja só, para muita gente a fase de ginásio e colegial pode ter sido dourada; não para mim. Qualquer ser humano dos 12 aos 17 anos consegue ser mais radical que o mais xiita dos muçulmanos. Não há meio certo, meio errado, um pouco bom ou um pouco ruim: tudo é ‘maravilhoso’ ou ‘horrível’, você é ‘incrível’ ou ‘imprestável’. Tons de cinza simplesmente não existem, é preto e branco, apenas.

E o problema mora exatamente aí: sempre fui fileira do meio. Não, não me refiro ao aspecto sexual – essa neurose, ao menos, nunca me afligiu. Eu gostava de meninos e ponto. O lance é que eu não me encaixava muito bem. Não era popular, mas também não circulava com a turma dos nerds; não fui feia, porém passava longe de ser bonita; não odiava o colégio mas não chegava a adorar. E, acima de tudo, eu não encaixavam em mim. Era como se a pele fosse uma roupa muito apertada nos braços e folgada nas pernas. Existir por sí só já era um tremendo incômodo. E com a necessidade real de rotular a tudo e todos, inclusive a nós mesmos, eu residia na tempestuosa zona intermediária de classificação. 

Lembra dos sapos, na aula de Biologia? Vida aquática E terrestre, respiração pulmonar E cutânea, meio peixe, meio quatro patas. Taí, eu era um sapo.

E para tudo ficar ainda mais confuso e tenebroso, havia as questões sentimentais. Nenhuma garota enche agendas com papéis coloridos e adesivos açucarados de graça. As comedinhas românticas das férias também não são feitas para genta adulta: é nas gurias jovenzinhas que eles miram, e nos seus corações eternamente abarrotados.

Porém, acho que a gente nunca sofre tanto de amor quanto na infância e adolescência. Tudo é muito intenso e emocional; como falei, não há tons de cinza. A gente amava para sempre e muito, muito, muito. Mas, ao mesmo tempo, gostar de um garoto era um martírio só comparado à aulas duplas de matemática todas as quartas-feiras, quando a d. Esmeralda chegava já mandando abrir a apostila nas equações de segundo grau. 

Tudo na paixonite adolescente é sofrido: primeiro, a dúvida. ‘Será que ele gosta de mim?’ podia permanecer martelando a cabeça dia e noite por vários meses. Cada movimento do garoto era meticulosamente estudado, numa busca incansável de qualquer sinal que demonstrasse o apreço recíproco ou a falta dele. Se isso fosse matéria do currículo escolar, eu nunca teria passado da quinta série, porque me ferrei em TODOS meus amores juvenis.

E esse era o segundo tormento: descobrir que não, ele não gosta de você. E, com a surpreendente crueldade que só meninos de 12 anos podem ter, ainda deixava claro que, na verdade, ele te despreza. Era como morrer duas vezes.

Mesmo para as sortudas que eram correspondidas havia outros  momentos de dúvida aterradora: beijar ou não beijar o moleque? Mesmo um pouco mais velhas, a pergunta mudava apenas de perspectiva: até que ponto chegar? O que não fazer? O que ele vai falar para os outros? 

Os términos eram muito mais sofridos, as lágrimas caíam em maior quantidade, a angústica era bem mais intensa. Creio que a gente ia aprendendo mais com as dores desses relacionamentos que com as alegrias que eles traziam. 

Por fim… passa. As paixões ficam mais leves, as cobranças são outras. Você ganha 10 anos, 10 kgs e 10 preocupações diárias que são muito mais importantes que qualquer amor arrebentado. Sempre haverá as dúvidas e as tristezas, mas acho que adquirimos alguma resistência amorosa na adolescência que é fundamental para os anos vindouros.  E ganhamos a ironia fina e magoada que passa um reboco por cima de tudo. Aquele monte de choro tristonho se transforma em histórias cômicas para divertir os amigos no boteco: ‘lembra daquele idiota por que eu fui APAIXONADA no ano passado?’

Ainda assim, um viço muito sutil também se perde. Já reparou nos olhos brilhantes de uma garota de 13 anos apaixonada pelo colega da carteira da frente, de quem ela só vê a nuca? Esse brilho também desaparece e nunca mais retorna. 

 

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33 Comments on “Vende-se coração 83, pouco uso, único dono”


  1. me identifico na parte do excluido nas classes. sempre fui quieto, caladao, nao mto feio e longe de ser gatinho. um energumeno modafoca, fazer o que.

    mas eu nao odiei essa idade não, pelo contrario. como eu disse, tenho historias pra deixar qq modafoca com o abdomen dolorido de tanto rir

    ateh q eu era tranquilo pra um adolescente. nunca usei drogas, nunca fumei cigarro. meu pai ficou bem relax. soh ficou louco quando resolvi sair de casa com 18 anos :P

    mas é isso ae sapinho :P bjo na alcatra

  2. Jovas Says:

    Mas tem outra situação pior: quando você é o moleque que é a fim justamente da menina que gosta de um fdp maldito que não gosta dela, e fica vendo isso tudo de camarote.

    Pior que acho que todo moleque na juventude já passou por isso.

    O bom é ver quão bundão cê era e quanto evoluiu nesse tempo que passou. =D

  3. Rafael R Says:

    Se alguém ler isso e não se identificar com qualquer parte do texto, não teve infância/adolescência. E são esses traumas que transformam a gente naquilo que somos hoje. Foda, me perdi no tempo aqui, lembrando bizarrices parecidas. Principalmente aquelas daquela fase em que temos que tomar iniciativas e por total falta de experiência… simplesmente deixamos passar!

    “Porra, me arrependi de não ter chegado nela!”

    Já rolou comigo. Mais de uma vez. Mas com o tempo a gente aprender.

  4. Lilly Says:

    Nossa, eu me sentia exatamente assim como você na adolescência … É mesmo um saco ser cinza num mundo sem nuances. Altas idiotices que sofri um monte… Mas, vc tem razão, nunca mais teremos “aquele” brilho.

    Saudações anfíbias,
    Lilly

  5. Dona M. Says:

    Se isso fosse matéria do currículo escolar, eu nunca teria passado da quinta série, porque me ferrei em TODOS meus amores juvenis. [2]

  6. Mariana Says:

    Adorei seu texto…

    Algo com identificações, talvez.

    beijos

  7. Nigro Says:

    Eu era nerd, cabeçudo e zoado… pq diabos eu ia sentir falta dessa época?! Em todo o caso eu tentei preservar algumas coisas legais daquele tempo, e eu não estão falando de amigos (até porque todos eles sumiram, já que eu sou um nômade)…

    Gosto de lembrar e tudo, algumas gurias por quem eu me derreti e gastei aos montes em chocolates que colocava furtivamente na mochila e a condenada achava que tinha sido o bonitão da sala. É… é… timidez é uma merda. Sinto até saudade, mas nada supera a liberdade e experiência que, em tese, se conquista com os anos que passam.

    Taí… gostei desse tópico nostálgico, guria! xD

    P.S.: Partiu #BlogcampRJ?

  8. Tiago da Fonseca Says:

    Eu que o diga, sempre me apaixonava fácil, todo ano tinha um amor e ficava o ano todo em cima até rolar alguma coisa mais mesmo assim eu curti bastante e sinto saudades não não daquelas que eu daria de tudo pra voltar pra aquela época, fazer tudo de novo, são saudades apenas saudades, quem que quando toca super fantástico num baile de formatura não pira? tá certo que é com o efeito de muito álcool mais isso é só um detalhe.
    Parabéns pelo post, me trouxe “boas” lembranças.

  9. André Nogueira Says:

    Moça,
    Meu coração é 9 anos mais rodado que o seu. Pra piorar fiquei muito tempo sem fazer revisão e perdi a garantia.
    As paixões, como filmes com enredos similares, não causam o mesmo impacto pelo conhecimento ou idéia prévia do que virá.
    Tenho a teoria de que a paixão libera substâncias viciantes em nosso organismo.
    Ao envelhecermos ficamos resistentes a essas substâncias e as sensações vividas nas primeiras experiências nunca mais se repetem.
    É essa dependência quimica da paixão que nos deixa confusos.
    O melhor remédio pra ausência de paixão é a admiração.


  10. As paixões adolescentes são avassaladoras. E cheias de drama. “Eu vou morrer se ele não olhar pra mim”, era uma frase constante. Engraçado que eu nem lembro o nome dele… heheh

  11. Fernando Says:

    a minha paixão de adolescência serviu pra eu me impor como meta, nunca mais na minha vida chorar, lamentar, lastimar ou qualquer coisa parecida, por mulher nenhuma.

    e funcionou muito bem.

  12. Taynar Says:

    Ahhh, minha segunda paixão infanto-juvenil (a primeira era de um menininho magro, de cabelos cor de fogo, que sentava na minha frente e ficava me olhando, e toda vez que eu perguntava ‘o que foi?’ ele dizia ‘nada’ e continuava me olhando), eu tinha 12 anos, ele devia ter 14. Um dia, ele me notou e quis ficar comigo, mas não fiquei por medo da minha mãe descobrir e brigar comigo.
    Ahhhh a nossa inocência…

    Beijos, moça

  13. Kipah Says:

    Adorei o texto!


  14. O lado bom é que, conforme cresce, a gente aprende a não se importar tanto. A não sofrer porque a garota nem percebe que você existe.

    PS: eu era um nerd cabeçudo e zoado…mas, sabe-se lá, como, consegui namorar minha paixão da escola! Bwahaha!

  15. Babi Says:

    suuuper me identifiquei. tb sofri do mesmo mal na adolescência. qto às paixões… tudo bem, nunca vai ser como era aos 16 anos, mas dá pra se apaixonar de novo e de novo, todos os dias e sempre, até pela mesma pessoa. e é bom, viu?
    beijo!

  16. Antonio Says:

    É, fomos e somos sapos, mudamos , mas sempre sobrevive aquela criatura tosquina da escola dentro de nós!
    Essas frustrações são mutuas para homens e mulheres(ou meninas e meninos), nos enganamos, fingimos, fugimos, bobiamos, pq perdemos tanto tempo?
    “Você ganha 10 anos, 10 kgs e 10 preocupações diárias que são muito mais importantes que qualquer amor arrebentado.” 10 anos de saberdoria, 10Kg de gostosura e 10 preocupaçoes pq a vida num é assistir Teletubbies…agente se fode mas vive a vida e aprende!

    PS.: Li pela primeira vez hj seu blog por causa do post com a bel no AOE. Agora fico me perguntando, vc, só teve um “dono”? No way, como pode? Eu ñ ter dona tudo bem, é meio q opção, ou falta de, mas vc…

  17. Antonio Says:

    A esqueci…Vc tmb tem a mania de falar estrupício…kkk…amigos meus ficam rindo pq uso isso faz eras pra mencionar certas pessoas, tenho evitado, mas faz tanto sentido usar! Cômico!

  18. Gabi Says:

    Eu sinto falta da inocência da adolescência (rimou).
    Fiz tanta coisa boa, tanta festa, tanta gente mais velha, foi ótimo! Mas aí, aos 16 comecei a namorar e, com uma pausa para alguns meses em outro país, fiquei com ele até os 22. Por isso acho que não perdi tanto assim o meu lado mulherzinha. Saco!

    Adoro o seu blog, Rachel!

    Entra no esbanjandojuventude.blogspot.com

  19. kati Says:

    ai, nem me fale! os meninos so me viam (ate hoje ve) como amiga. nao tinha um grupo certo de amigos, e ate ligarem p minha casa me chamando de lesbica aconteceu… o unico detalhe e’ que nao sou. mas tive bons momentos! nunca gostei de angelica, sandy e junior e sempre fiquei com medo da “novela” malhacao. po, se vc nao achar o amor da sua vida na escola desiste! acho q tenho medo de isso ser verdade…malhacao maldita!
    adoro seu blog

  20. Bruno Says:

    Apesar de todos os problemas sentimentais, a adolescência foi uma fase bem legal.
    A vida era bem mais simples…

  21. Anna O. Says:

    Ah, pois é, e uma das maiores satisfações qdo vc fica mais velha e sarcástica é ver que o carinha por quem a escola toooda era apaixonada virou um estrupício. E te viu na rua. E disse que você tá gata.
    uuuuu! E ver que as populares da escola estão só o pó da rabiola com dez catarrentos.
    Mwhahahahahaahahahah


  22. Rach está apaixonada e eu, com saudade.

    Ótimo esse texto. E aquele pra sua irmã também.

    Beijos

  23. Jorge Says:

    Post “dia dos namorados solitário” total, hein???

    E parece que o clima contagiou quase todo mundo que comentou até agora! :P
    Mais um pouco e começaria a imaginar um monte de teclados afogados…

  24. paxajax Says:

    Ótimos textos, os dois que André Monsores fala. Parabéns !

  25. Edu Says:

    Putz, acho que a inocência agressiva e a necessidade de auto-afirmação da adolescência são excelentes! Era divertido demais, o clube, os namoricos, as aulas chatas, amores não correspondidos sem a experiência necessária para que se pudesse fazer qualquer coisa a respeito.

    Eu achava graça quando a Dona Esmeralda escrevia uma carta enooorme no caderno de alguém e fazia o infeliz trazer assinado pela mãe na aula seguinte! kkkkkkkkk

    Era bom demais não ter preocupações, nem contas, nem compromisso, nem nada. Só o baile do Havaí, o carnaval e a cachaçaria importavam!

    Belo texto! Bejo

  26. Camila Says:

    Mewww, q texto show!
    Apesar de eu ter gostado bastante da minha adolescência, eu fui bem “meio termo” tb!. Tirava notas boas, mas não chegava a ser nerds; bonitinha, mas não popular…e os amores!! aii…cada ano a paixão “platônica” era um! rsrs todos sem sucesso.
    Mas é vivendo e aprendendo meeesmo! E a cada ano a gente se sente melhor!

    gostei do blog!

    Bjos

  27. Fernanda Says:

    Tenho inúmeras paixões do passado que me rendem lembranças maravilhosas, sinto apenas de não trazido algumas até aqui. As paixões são complementos, meros espelhos do que “imaginamos” que somos, elas passam sim, pode ter certeza. Amadurecer é amar, amar a sí, e estar aberta para o Amor. O que vc viveu foi paixão, e que te “manuelou” para o amor. Vc se imagina sem brilho no olhar?

  28. Paulo Maia Says:

    hhehehe eu tenho uma experiência parecida no colegial … era visto como louco pelos nerrds e nerd pelos loucos. Ou seja, não tinha exatamente um grupo. Te entendo totalmente.

  29. Miquelle Says:

    Se isso fosse matéria do currículo escolar, eu nunca teria passado da quinta série, porque me ferrei em TODOS meus amores juvenis. [3]

  30. Barrozo Says:

    Eu costumo dizer que os EMOS são exatamente a expressão do jovem! As dúvidas, as emoções e a intensidade com que isso tudo acontece! Ou você Ama MUUUITTOO, ou ODEIAAAA! Ou é linduuuhhh ou horrível! Ser adolescente, é ser EMO!

  31. Barrozo Says:

    Ah, e adorei a música! Eu não conhecia essa banda!

  32. Leandra Says:

    Espere fazer 35…!


  33. Tava tentando sentir novamente esse friozinho.. Realmente, é incomparável!


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